quarta-feira, 8 de julho de 2026

Resenha: Ordem Mundial (Henry Kissinger)

O livro para entender geopolítica e suas complexidades

velha economia


Henry Kissinger foi um dos mais famosos diplomatas dos EUA, com passagens em variadas presidências. Além da experiência profissional, Kissinger é também um autor prolífico, com obras importantes publicadas no tema relações internacionais. Ordem Mundial se beneficia dessas décadas de conhecimento e experiência prática.

Ordem Mundial é a distribuição e arranjo da distribuição de poder entre Estados, com abrangência global, isto é, aplicável para todos os países. A Ordem Mundial é precedida por um conjunto de regras aceitas por todos os países (ou a maioria), gerando os limites de ações para cada nação.

Outra característica essencial da Ordem Mundial é o equilíbrio de poder entre os Estados. Com esse equilíbrio, guerras e conflitos podem ser barrados ou desacelerados, visto a ausência de um único poder que poderia subjugar todo o restante dos Estados.

 

NÃO É FÁCIL

Como pode ser percebido pela própria definição de Ordem Mundial, há problemas claros nesse conceito. O primeiro é: e se um país se negar a participar das regras explícitas e implícitas da Ordem Mundial?

Rússia?

E se um país se tornar mais forte que todo o restante? Quem irá barrá-lo? Esse país não iria alterar a ordem e as instituições para o seu benefício próprio?

Há quem critique os EUA por terem seguido esse caminho nas últimas décadas.

Criar e manter uma Ordem Mundial é tarefa complicada e difícil.

Daí a importância da diplomacia.

 

PAZ DE VESTFÁLIA

O ponto de inflexão na Ordem Mundial, com efeitos persistindo nos dias de hoje, foi a paz de Vestfália, quando diversos países concordaram com um grupo de regras, com destaque para o reconhecimento da soberania do Estado e o direito de cada nação em escolher sua própria religião e instituições domésticas.

Novamente, a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 e a derrubada de Maduro na Venezuela em 2026 pelos EUA colocam em xeque o funcionamento da paz de Vestfália.

Todavia, como os europeus estabeleceram em 1648 (quando o acordo foi assinado), o equilíbrio de poder entre as nações seria um objetivo explícito de política estrangeira. Mal ou bem, esse arranjo tem ajudado a resolver e evitar conflitos.

Adicionalmente, a paz de Vestfália conseguiu colocar uma bússola para países ponderarem suas ações a nível global. 

Minha avaliação é que, embora imperfeito, a soberania de nações e o equilíbrio de poder ajudaram a construir o mundo em que vivemos, onde há negociações entre países para que conflitos sejam reduzidos.

 

E AS ARMAS NUCLEARES?

Kissinger reconhece que o maior desafio da atualidade é controlar a expansão de armamentos nucleares.

Acordos têm sido realizados, mas a posse de armas nucleares continua sendo o objetivo de alguns países, como o Irã.

A Coreia do Norte, por exemplo, ignorou toda essa discussão e se armou.

Há o dilema da arma nuclear: elas reduzem a probabilidade de guerras, dado o risco de aniquilação mútua (qual seria o ponto de guerrear para deixar de existir?), mas elas aumentam de forma monumental o impacto de um possível conflito entre potências nucleares.

Diversos filmes e séries exploram um cenário apocalíptico, como Mad Max e o meu favorito, Fallout. Nestes, a guerra nuclear ocorreu e dizimou parte do planeta.

Tenho para mim, e serei um pouco pessimista, que em algum momento vivenciaremos um conflito nuclear.

Desta forma, não seria uma questão de se, mas de quando.

O constante progresso tecnológico, o incremento no poder de fogo e o acúmulo de armas de aniquilação em massa me fazem pensar dessa forma.

Loucos, como Kissinger realça, sempre existiram e existirão – parte da política internacional é deter esses “malucos”, como Hitler.

 

VIÉS AMERICANO

O autor nos dirá que o poder militar dos EUA beneficiou diretamente e indiretamente vários países, ao reduzir o risco de guerras e invasões.

A força militar dos EUA - e o risco de sofrer uma retaliação pelo mesmo  -, desincentivava invasões domésticas.

Neste sentido, valores como democracia, livre mercado e respeito aos direitos humanos foram exportados pelos EUA.

Bom, me parece que faz sentido o argumento: os EUA se portaram como guarda mundial do planeta por um tempo.

Claro, cometeu erros.

Mas auxiliou a espalhar essas ideias e ideais.

Como sempre acontece, não há mocinhos na geopolítica.

Os EUA também cometeram equívocos, como o apoio a golpes militares em países que flertavam com o comunismo, durante a Guerra Fria.

Uma flagrante violação do princípio de soberania nacional.

 

SOBRE O PLANETA

Parte interessante da obra é a discussão de países relevantes na Ordem Mundial, como a Rússia, o bloco europeu, o oriente médio, a Ásia e a China. Kissinger resgata a história desses países para entender os seus comportamentos e ambições.

A Rússia convive com insegurança e incerteza desde o período dos Czars. A humilhação com a queda da União Soviética ajudou em nada. 

No Oriente Médio, o Irã, por exemplo, tem em sua constituição o objetivo de transformar o planeta em uma Grande República Muçulmana. O que isso significa para países que seguem outras religiões, como o Brasil?

Ainda sobre o Irã, a resiliência desse povo, que sofreu tantas guerras, invasões e dominações (lembre-se que os iranianos foram o império Persa da antiguidade), e ainda persistiram, mostra que eles não iriam sucumbir rapidamente como os EUA pensaram, ou melhor, como Trump e seu “parceiro”, o primeiro ministro de Israel, pensaram.

Na Ásia, Índia e China veem com desconfiança a aproximação dos países ocidentais. Não é por menos: ambos foram invadidos por países europeus. A Índia, em particular, foi colonizada pela Inglaterra.

E hoje os europeus pedem (exigem?) bons modos desses países.

Condenam a invasão da Ucrânia pela Rússia, eles, que costumavam invadir os demais.

Sim, há hipocrisia na geopolítica.

Essa parte termina com a China, principal rival dos EUA.

A recomendação é de aproximação, na qual eu concordo.

 

O DILEMA AMERICANO

Uma questão central na obra é a ambivalência dos EUA.

O país engaja com outros países, mas até determinado ponto.

A população não parece disposta a pagar o alto custo desse engajamento, como guerras duradouras.

Enquanto os americanos consideram os seus valores universais, desejando que o resto dos países os seguissem, eles não gostam, digamos, de conviver com uma inflação mais alta, como demonstrado no atual conflito com o Irã.

Os EUA se portam como se os países que não adotassem os seus valores tivessem menor ou reduzida legitimidade, criando o senso de intervir nessa nação.

Desta forma, há a ambivalência mostrada por Kissinger: desejam e querem espalhar os valores democráticos, de liberdade, de mercado e de direitos humanos, mas sem muito custo.

 

DESAFIO

O livro termina afirmando que o atual desafio é reconstruir a ordem mundial, que ficou desbalanceada com o fim da União Soviética.

Há quem diga que o futuro pode ser uma ordem mundial com blocos regionais em equilíbrio, como o Mercosul, BRICS e União Europeia.

Difícil saber.

 

CONCLUSÃO

É um livro bom de ser lido, informativo, principalmente ao discutir o passado e presente de países.

A discussão do conceito de Ordem Mundial também agrega, ajudando a entender a geopolítica e suas complexidades.

A leitura, por outro lado, é um pouco densa.

Não atrapalha, mas dificulta a sua fluidez.

 

 

 

 

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