O livro para entender geopolítica e suas complexidades
Henry Kissinger foi um dos mais famosos
diplomatas dos EUA, com passagens em variadas presidências. Além da experiência
profissional, Kissinger é também um autor prolífico, com obras importantes
publicadas no tema relações internacionais. Ordem Mundial se beneficia dessas
décadas de conhecimento e experiência prática.
Ordem Mundial é a distribuição e arranjo da distribuição de poder entre
Estados, com abrangência global, isto é, aplicável para todos os países. A
Ordem Mundial é precedida por um conjunto de regras aceitas por todos os países
(ou a maioria), gerando os limites de ações para cada nação.
Outra característica essencial da Ordem
Mundial é o equilíbrio de poder entre os Estados. Com esse equilíbrio,
guerras e conflitos podem ser barrados ou desacelerados, visto a ausência de um
único poder que poderia subjugar todo o restante dos Estados.
NÃO É FÁCIL
Como pode ser percebido pela própria
definição de Ordem Mundial, há problemas claros nesse conceito. O primeiro é: e
se um país se negar a participar das regras explícitas e implícitas da Ordem
Mundial?
Rússia?
E se um país se tornar mais forte que todo
o restante? Quem irá barrá-lo? Esse país não iria alterar a ordem e as
instituições para o seu benefício próprio?
Há quem critique os EUA por terem seguido
esse caminho nas últimas décadas.
Criar e manter uma Ordem Mundial é tarefa
complicada e difícil.
Daí a importância da diplomacia.
PAZ DE VESTFÁLIA
O ponto de inflexão na Ordem Mundial, com
efeitos persistindo nos dias de hoje, foi a paz de Vestfália, quando diversos
países concordaram com um grupo de regras, com destaque para o reconhecimento
da soberania do Estado e o direito de cada nação em escolher sua própria
religião e instituições domésticas.
Novamente, a invasão da Ucrânia pela Rússia
em 2022 e a derrubada de Maduro na Venezuela em 2026 pelos EUA colocam em xeque
o funcionamento da paz de Vestfália.
Todavia, como os europeus estabeleceram em
1648 (quando o acordo foi assinado), o equilíbrio de poder entre as
nações seria um objetivo explícito de política estrangeira. Mal ou bem, esse
arranjo tem ajudado a resolver e evitar conflitos.
Adicionalmente, a paz de Vestfália
conseguiu colocar uma bússola para países ponderarem suas ações a nível
global.
Minha avaliação é que, embora imperfeito, a
soberania de nações e o equilíbrio de poder ajudaram a construir o mundo em que
vivemos, onde há negociações entre países para que conflitos sejam reduzidos.
E AS ARMAS
NUCLEARES?
Kissinger reconhece que o maior desafio da
atualidade é controlar a expansão de armamentos nucleares.
Acordos têm sido realizados, mas a posse de
armas nucleares continua sendo o objetivo de alguns países, como o Irã.
A Coreia do Norte, por exemplo, ignorou
toda essa discussão e se armou.
Há o dilema da arma nuclear: elas reduzem a
probabilidade de guerras, dado o risco de aniquilação mútua (qual seria o ponto
de guerrear para deixar de existir?), mas elas aumentam de forma monumental o
impacto de um possível conflito entre potências nucleares.
Diversos filmes e séries exploram um cenário
apocalíptico, como Mad Max e o meu favorito, Fallout. Nestes, a guerra nuclear
ocorreu e dizimou parte do planeta.
Tenho para mim, e serei um pouco
pessimista, que em algum momento vivenciaremos um conflito nuclear.
Desta forma, não seria uma questão de se,
mas de quando.
O constante progresso tecnológico, o
incremento no poder de fogo e o acúmulo de armas de aniquilação em massa me
fazem pensar dessa forma.
Loucos, como Kissinger realça, sempre
existiram e existirão – parte da política internacional é deter esses
“malucos”, como Hitler.
VIÉS AMERICANO
O autor nos dirá que o poder militar dos EUA beneficiou diretamente e indiretamente vários países, ao reduzir o risco de guerras e invasões.
A força militar dos EUA - e o risco de sofrer uma retaliação pelo mesmo -, desincentivava invasões domésticas.
Neste sentido, valores como democracia,
livre mercado e respeito aos direitos humanos foram exportados pelos EUA.
Bom, me parece que faz sentido o argumento:
os EUA se portaram como guarda mundial do planeta por um tempo.
Claro, cometeu erros.
Mas auxiliou a espalhar essas ideias e
ideais.
Como sempre acontece, não há mocinhos na
geopolítica.
Os EUA também cometeram equívocos, como o
apoio a golpes militares em países que flertavam com o comunismo, durante a
Guerra Fria.
Uma flagrante violação do princípio de
soberania nacional.
SOBRE O PLANETA
Parte interessante da obra é a discussão de
países relevantes na Ordem Mundial, como a Rússia, o bloco europeu, o oriente
médio, a Ásia e a China. Kissinger resgata a história desses países para
entender os seus comportamentos e ambições.
A Rússia convive com insegurança e incerteza desde o período dos Czars. A humilhação com a queda da União Soviética ajudou em nada.
No Oriente Médio, o Irã, por exemplo, tem em sua
constituição o objetivo de transformar o planeta em uma Grande República Muçulmana.
O que isso significa para países que seguem outras religiões, como o Brasil?
Ainda sobre o Irã, a resiliência desse
povo, que sofreu tantas guerras, invasões e dominações (lembre-se que os
iranianos foram o império Persa da antiguidade), e ainda persistiram, mostra que eles não
iriam sucumbir rapidamente como os EUA pensaram, ou melhor, como Trump e seu “parceiro”, o primeiro ministro de Israel, pensaram.
Na Ásia, Índia e China veem com
desconfiança a aproximação dos países ocidentais. Não é por menos: ambos foram
invadidos por países europeus. A Índia, em particular, foi colonizada pela
Inglaterra.
E hoje os europeus pedem (exigem?) bons
modos desses países.
Condenam a invasão da Ucrânia pela Rússia,
eles, que costumavam invadir os demais.
Sim, há hipocrisia na geopolítica.
Essa parte termina com a China, principal
rival dos EUA.
A recomendação é de aproximação, na qual eu
concordo.
O DILEMA
AMERICANO
Uma questão central na obra é a
ambivalência dos EUA.
O país engaja com outros países, mas até
determinado ponto.
A população não parece disposta a pagar o
alto custo desse engajamento, como guerras duradouras.
Enquanto os americanos consideram os seus
valores universais, desejando que o resto dos países os seguissem, eles não
gostam, digamos, de conviver com uma inflação mais alta, como demonstrado no
atual conflito com o Irã.
Os EUA se portam como se os países que não
adotassem os seus valores tivessem menor ou reduzida legitimidade, criando o
senso de intervir nessa nação.
Desta forma, há a ambivalência mostrada por
Kissinger: desejam e querem espalhar os valores democráticos, de liberdade, de
mercado e de direitos humanos, mas sem muito custo.
DESAFIO
O livro termina afirmando que o atual
desafio é reconstruir a ordem mundial, que ficou desbalanceada com o fim da
União Soviética.
Há quem diga que o futuro pode ser uma
ordem mundial com blocos regionais em equilíbrio, como o Mercosul, BRICS e
União Europeia.
Difícil saber.
É um livro bom de ser lido, informativo,
principalmente ao discutir o passado e presente de países.
A discussão do conceito de Ordem Mundial
também agrega, ajudando a entender a geopolítica e suas complexidades.
A leitura, por outro lado, é um pouco
densa.
Não atrapalha, mas dificulta a sua fluidez.

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