Se considerarmos o futuro do planeta, a resposta é negativa
O mundo está mais caótico do que no passado?
Há quem pense que sim.
Por exemplo, tivemos a COVID-19 no final de 2019, a qual durou até meados de 2021.
Depois da pandemia, iniciou-se a guerra da Ucrânia com a Rússia. Essa guerra contribuiu com o aumento do custo de vida, em parte por conta do aumento do preço do petróleo.
Tivemos a guerra na faixa de Gaza entre Israel e grupos terroristas em 2023.
Em 2025, Donald Trump assustou todo o planeta com suas insensatas tarifas comerciais. Não era difícil prever que elas iriam elevar o custo de vida e/ou enfraquecer a atividade econômica de seu país. Também não era difícil afirmar que os consumidores, leia-se, o eleitorado de Trump, seriam prejudicado. Eu fiz essas previsões (fáceis) aqui, em 13 de agosto de 2025.
Bem, o resultado das eleições de Trump, com expressiva vitória de sua oposição, os democratas, mostra que o custo chegou.
(Na economia, às vezes, não é difícil acertar previsões; políticas ruins são facilmente detectáveis, com efeitos também facilmente previstos).
Continuando a enumerar problemas globais, em 2026, o mesmo Donald Trump se envolveu na guerra com o Irã, a qual perdura. Juntamente com o conflito entre Rússia e Ucrânia, essa guerra pressionou ainda mais os preços do petróleo.
USEMOS DADOS
Como os termos "ambiente caótico" ou "incertezas" são abstratos, isto é, não palpáveis, economistas constroem índices para mensurar esse estado de coisas (economistas são muito criativos em inventar índices para representar fenômenos).
Eu coletei o risco geopolítico, um índice que mensura a incerteza e o caos global com base em palavras que indicam esse sentimento em jornais selecionados.
A ideia é a seguinte: quando jornais começam a discutir muito tópicos como guerras, conflitos, atritos, ameaças e ataques terroristas, espera-se que palavras relacionadas a esses termos apareçam mais. Quanto maior o seu número, maior a frequência dessas palavras. Então, maior a incerteza e o risco geopolítico. Abaixo eu reproduzo esse índice, coletado do Economic Policy Uncertainty.
Veja que o índice dispara no ano de 2022 (invasão da Ucrânia pela Rússia).
Em 2023, temos outro pico (conflitos no Oriente Médio).
Em 2025, outro aumento (possivelmente as tarifas de Trump).
Recentemente, em 2026, outra elevação substancial, refletindo o bombardeio no Estreito de Ormuz, onde EUA e Irã disputam espaço.
Então estamos vivendo em uma era de maior risco geopolítico, de maior incerteza? Maior caos?
Voltando à figura, note que desde 2021, há uma tendência crescente - a linha azul parece ir crescendo, embora com altas e quedas.
Eu diria que sim: nos últimos anos, temos vivido em uma conjuntura mais conturbada.
O índice risco geopolítico consegue capturar esse momento com a elevação de seus valores: jornais estão discutindo mais tópicos relacionados ao aumento da incerteza e dúvidas com o futuro.
ISSO É RUIM?
Eu me questionei se esse cenário de maior incerteza poderia prejudicar investimentos de energia renovável no longo prazo.
Vamos comigo: todo investimento carrega um componente de incerteza, pois não sabemos do futuro e tampouco de como será o cenário econômico subsequente.
No tocante à energia renovável, muitos dos seus investimentos são de longo prazo, levando anos e anos para se concretizarem e começarem a dar retorno aos investidores.
Quando estamos em uma atmosfera de incerteza, como a atual, se torna ainda mais difícil fazer previsões.
E se as guerras empobrecerem as pessoas, e elas passarem a consumir menor quantidade de energia? Neste caso, a queda da demanda por energia iria reduzir o retorno de quem investiu em energia renovável.
O investimento pode não ser lucrativo.
Sabendo desse possível efeito, o investidor, hoje, se abstém de investir em energia renovável. Por que apostar suas fichas quando a situação do jogo piorou?
Neste sentido, eu examinei o efeito do aumento do risco geopolítico em 17 economias. Sem muitas surpresas, os resultados mostraram que a transição energética é prejudicada, com a consequência do aumento das emissões de gás carbônico. O artigo acadêmico está aqui.
Essa é apenas uma das consequências.
Como antecipei, esse cenário, em parte sustentado por Donald Trump, prejudicou os norte-americanos, prejudicou os seus eleitores, e o prejudicou!
E agora sabemos que ele também pode prejudicar o futuro energético do planeta.


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