sexta-feira, 15 de maio de 2026

Bobeira é Não Viver a Realidade

No final, temos de saber o que realmente desejávamos para não lamentar o que recebemos

velha economia


Essa semana o noticiário bombou com o vazamento do áudio de Flávio Bolsonaro com o (ex?) bilionário Daniel Vorcaro. Como esperado, foi reportado que o mercado financeiro reagiu a essa notícia, com a subida da taxa de juros e a queda do valor do real

Como pesquisador de economia, eu teria mais cuidado em fazer essas associações entre uma notícia e reações do mercado financeiro - é sempre difícil atribuir causalidade. 

Mas ok, eu imagino que algum efeito de fato deve ter existido. 

Até as eleições de outubro, iremos conviver com esse tipo de notícia.


MAS NÃO É DISSO QUE QUERO FALAR

Eu fiquei refletindo sobre a vida de Daniel Vorcaro.

Por exemplo, no editorial do Folha de S. Paulo, foi dito que Vorcaro tentou comprar a República

Claro, é um exagero, mas também não foge muito da realidade. 

Vorcaro tinha "negócios" (!) com políticos, juízes e empresários. 

Sem dúvidas a sua agenda deveria ser muito cheia e atribulada: muitos encontros, "negociações", nervosismo para selar uma ajuda e novos laços para fortalecer sua posição futura. 

À noite, Vorcaro conseguia dormir tranquilamente?


NÃO ESTOU MORALIZANDO

Meu ponto não é de valor moral, é sobre a ansiedade de ter tantos negócios em aberto, para selar, manter e fortalecer. 

Reflita comigo: em nossas vidas, não temos várias fontes de ansiedade?

Por exemplo, há autoridades colocando a ansiedade como um dos principais desafios e males do atual século

E eu não acho que esse pessoal esteja muito distante da verdade.  

Como tão bem explicado e retratado no ótimo livro Nação Dopamina, tendemos a buscar mecanismos (leia-se dopamina, prazer momentâneo e fugaz) para fugir do tédio, da tristeza e da ansiedade (fiz uma resenha do livro aqui).

Sempre ela. 

Estudos estão mostrando que o uso de redes sociais, em parte, serve para fugirmos de nossa ansiedade. 

Além de toda a atratividade e vício programado que as redes sociais nos causam, será que não teria o componente nosso, nossa culpa, de usá-la, mesmo que de forma inconsciente, para fugir dos nossos demônios internos, como a ansiedade?


MAIS SOBRE NÓS, OS ANSIOSOS

Conforme nos tornamos adultos, boletos abundam. 

Temos objetivos profissionais nos quais corremos para atingi-los. 

Muitas vezes iremos fracassar. 

Relações amorosas podem não funcionar. 

Temos sonhos de viajar, passear, conhecer lugares. Mas ao mesmo tempo temos que dedicar tempo para nosso trabalho.

Todo esse emaranhado de coisas pode criar ansiedade. 

Há os picos de ansiedade, como entrevistas de empregos, apresentações, novas funções, primeiros dates e por aí vai. 

Imagine, então, a vida de Vorcaro. 

Sem conhecê-lo, sem nunca ter ouvido o seu nome, eu arriscaria que ele sofria de enorme ansiedade na sua busca em "comprar a República" - gostei do termo usado pelo editorial da Folha de S. Paulo.


UM PARÊNTESE

Desde que conheci as obras de Nietzsche, grande filósofo alemão, eu passei a prestar atenção nas palavras de quem escreve (a propósito, a postagem record de visitas do blog é essa aqui, do livro Além do Bem e do Mal, de Nietzsche). 

Para além do conteúdo que é transmitido, podemos entender a personalidade de quem dialoga conosco. 

Nietzsche me ensinou a perceber uma raiva embutida, um ressentimento omitido em várias passagens.

Eu senti isso no editorial da Folha!

Termos pesados, ainda que provavelmente corretos, sendo usados sobre Vorcaro.

A escrita como válvula de descontentamento?

Posso estar enganado, mas eu vi esses traços no editorial de hoje.

Por que tanta raiva ao escrever? Escrever, pelo menos para mim, é uma arte, ainda que eu não seja artista. 


VOLTANDO AO FOCO DO TEXTO

Seria Vorcaro um escravo?

Ok, eu explico.

Recentemente eu li a obra Sobre os Benefícios, de Sêneca, grande pensador estoico romano. 

Sêneca, famoso por criticar a forma como usamos o tempo - para ele, nós o desperdiçamos e depois reclamamos que a vida é breve.  

Sobre escravos, Sêneca faz a provocação se não existiria mais escravos do que de fato ele via em sua época (durante o Império Romano). 

A pessoa que sofre de luxúria, que busca constantemente parceiros (as) sexuais, gastando noites, tempo, dinheiro e energia nessa busca, não seria um tipo de escravo?

O outro que busca a validação de sua vida perante uma plateia invisível, sempre tentando ser mais do que é, ou então mascarando sua vida, também não seria outro tipo de escravo?

Para o nosso tempo e época, o qual coloca o consumo como alicerce de uma vida boa, o consumo de viagens paradisíacas e de bens de luxo, não poderia criar outro tipo de escravidão? 

Eu imagino que você, caro leitor, deva conhecer pessoas que tão logo aumentem a renda, elevam o padrão de vida. E assim têm de continuar correndo, aumentar a renda para financiar um consumo imparável, à lá Shia em Unstoppable.  

Essa é a famosa corrida de hamster: corre corre e corre, mas nunca sai do lugar. 

Existe liberdade quando somos reféns dessas coisas?


TALVEZ SEJAMOS, EM ALGUM GRAU, TODOS ESCRAVOS?

Talvez!

E o interessante é que nós mesmos criamos a nossa prisão

E assim eu volto a Daniel Vorcaro.

O que me diz? 

Esse tanto de esquemas com autoridades públicas, transferências milionárias e diversas rodadas de negociação, não poderiam criar um tipo de escravidão com o sistema?

Pelas fotos mostradas nos jornais, Vorcaro parecia gostar de ostentar o consumo de bens de luxo.

Talvez ele padecesse da corrida de hamster, mas em um nível grandioso em termos de fluxo de gasto e consumo. 

De toda forma, me parece que sua vida não era tranquila. 

(O mesmo pode ser dito aos envolvidos nos esquemas com Vorcaro - deve existir muita tensão entre o combinado, o executado e as transferências monetárias). 


QUAL O PONTO DO TEXTO?

Essa pergunta deve ser jogada para cada um de nós. 

Eu imagino que todos desejamos a felicidade.

Também desejamos sucesso material. 

E quando a busca do sucesso material esbarrar com a tal da felicidade? 

A ansiedade (voltei nela) se associa de forma negativa com a felicidade. 

Já conviveu com pessoas ansiosas? Sim, certo? 

Eu não diria que elas têm uma vida boa. 

E agora vejamos com Vorcaro (e demais políticos, juízes e a turminha dos milhões que voavam). O que me diz dele? Deles?


PARA FINALIZAR

Concordo, se o senhor me julgou, que esse texto deu algumas voltas.

Vou escrever um raciocínio que li quando eu ainda era aluno de graduação (anos 2009 a 2013):

"Temos de refletir sobre o que queremos para nossas vidas. Se desejamos ficar ricos, iremos buscar essa meta a todo o custo, mesmo abdicando de nossos valores?"

Se quiser, tire "nossos valores" e coloque "sua felicidade". 

Ou também "sua tranquilidade".

Como eu aprendi na Economia, com validade para nossas vidas, tudo nessa vida tem um custo, um preço.

Tenho para mim que Vorcaro escolheu uma opção com altíssimo custo.

Idem para quem se envolveu com ele.


















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