Livro expões nossas falhas como sociedade
Fabio Giambiagi é um nome conhecido no debate econômico nacional. Estudantes de economia utilizam o livro Economia Brasileira Contemporânea, organizado por ele, para aprenderem a história econômica do Brasil. Além disso, Giambiagi é presente em colunas, debates, livros e conferências.
A Vingança de Tocqueville é uma espécie de resumo do pensamento e obra de Giambiagi. Atingindo os 60 anos de vida, o autor decidiu seguir obras como Lanterna na Popa, de Roberto Campos, nas quais há uma mistura de vida do autor com o seu pensamento e argumentação.
A obra mostrará que nós brasileiros temos falhado em planejar o nosso futuro, em pensar no longo prazo.
Parte do erro advém de nossa falta de virtude em aceitar que, para termos algo melhor no futuro, temos de fazer sacrifícios no presente. Tomar medidas difíceis.
Outro problema é que assumimos um papel passivo na sociedade, esperando que o governo resolva todos os nossos problemas. Nas palavras de Giambiagi: "A vitimização está profundamente enraizada na alma nacional e é parte da explicação de nossas frustrações".
A obra termina com uma provocação. Caso nossa postura não se altere, poderemos ter como futuro e destino o atraso.
NOSSOS PECADOS
Nas décadas passadas, o Brasil se desenvolveu com alguns vícios.
Talvez o pior deles tenha sido o protecionismo.
As empresas nacionais, ainda nos dias atuais, reclamam da concorrência internacional.
Da necessidade de proteger para que elas possam crescer e ter condições em competir com multinacionais.
Como se tornar forte e poderoso sem sair da zona de conforto?
O protecionismo foi amplamente usado no passado e continua a ser aplicado atualmente.
Para o autor, é um dos fatores que explicam o nosso atraso.
Estou de acordo nessa.
O PRINCIPAL PECADO?
Nossa principal dívida histórica é com a negligência com a educação, especialmente a educação básica, os anos iniciais das crianças nas escolas.
No passado, todo o esforço se concentrou em modernizar empresas e a infraestrutura, ou seja, o capital físico. O capital humano (educação) ficou de lado.
Ainda nos dias de hoje, tenho a impressão que o governo olha muito mais para cima (ensino superior) do que para baixo (educação básica).
Algo estranho!
É na educação básica que o jogo se ganha.
Crianças com educação deficiente chegarão em péssimas condições no ensino superior.
Como professor universitário, tenho pouco a fazer quando o aluno não tem uma boa base.
É praticamente impossível reverter a falta da educação básica de qualidade.
E veja que, tivéssemos uma educação de base boa, parte da desigualdade de renda se resolveria, pois os jovens brasileiros partiriam para o mercado de trabalho em melhores condições.
A TRÍADE QUE MACHUCA
O livro acerta em mostrar nossos 3 principais problemas econômicos.
Dois foram superados.
Resta um.
Mas esse um incomoda.
Os dois problemas que foram debelados foram a inflação descontrolada e as contas externas.
O Plano Real de 1994, após vários planos de estabilização fracassados, conseguiu nos dar uma moeda - a qual usamos até os dias de hoje.
Isso não é pouco em um continente no qual vários países lutam para ter uma moeda decente.
O segundo problema, resolvido em 2008, foi o desequilíbrio no balanço de pagamentos, com baixas reservas internacionais.
O país tem farta quantidade de reservas internacionais.
Estamos longe, por exemplo, de precisar de socorro externo do FMI, como nossa vizinha Argentina sempre tem feito.
Mas o terceiro problema, a falta do ajuste fiscal, continua.
ARGENTINIZAÇÃO?
Novidade do livro é o uso de argumentos não econômicos para os problemas econômicos.
E aqui tenho uma crítica: o livro demorou para inovar nessa argumentação.
Quem é da área e leu Giambiagi conhece bem todos os pontos econômicos colocados.
Nos primeiros capítulos, o livro me pareceu repetitivo - sensação de já o ter lido.
Todavia, isso melhora com o avançar das páginas.
Um ponto interessante é a "Argentinização" do Brasil.
Estaríamos nos aproximando da Argentina pela falta de diálogo, harmonia e compreensão na política, com forte polarização e falta de consenso.
Seria a consubstanciação do ódio, raiva e desprezo pelos partidos rivais. Algo que se estenderia na população, com brigas por conta de política. É o nós contra eles.
Para o país, isso é péssimo porque deixaríamos de ter políticas de Estado (como fazer o ajuste fiscal), mas teríamos políticas de governo, que se alterariam conforme quem ocupasse o poder.
SISTEMA POLÍTICO OBSOLETO
Outro acerto é apontar que precisamos evoluir para algo próximo do parlamentarismo.
Temos um sistema político muito fragmentado, com vários partidos - o famoso centrão.
Governar se tornou uma tarefa hercúlea, pois o poder Executivo precisa construir acordos com diferentes partidos.
Adicionalmente, temos também a anomalia do poder Legislativo executar emendas sem necessitar do Executivo: as emendas impositivas.
Embora o livro não tenha tocado, eu adiciono que o poder Judiciário também está com problemas.
As regalias, a blindagem e o poder concedidos aos juízes são inconcebíveis para uma democracia.
Veja o caso do banco Master, Daniel Vorcaro e o envolvimento dos juízes do STF. As condutas de Alexandre de Moraes e Toffoli têm sido lamentáveis - para dizer o mínimo.
DIAGNÓSTICO É O DE SEMPRE
Como eu argumentei no ebook A Estranha Lógica da Economia Brasileira, não há debate sobre o longo prazo.
Quase ninguém afirma que o nosso principal problema é a baixa produtividade.
Sem consertar esse ponto, não iremos avançar.
Digo e repito porque é uma verdade desagradável: continuaremos no mesmo lugar.
Estagnados.
Vendo o mundo avançar.
E nós aqui discutindo taxa de juros Selic e afirmações inadequadas de políticos A e B.
O debate é pobre!
E Giambiagi está correto em acusar nossos políticos por tal pobreza.
Eu dou um passo a mais e digo que toda a população tem implicação nesse cenário.
Somos todos réus!
Falei isso no ebook e continuo afirmando.
TEMOS TAMBÉM DE FAZER O AJUSTE FISCAL
Não há para onde correr.
Apenas gastar recursos públicos, aumentando a dívida pública e pagando mais juros vai ter um final ruim!
(na verdade, já está ocorrendo o final ruim)
É insustentável uma postura tão perdulária, despreocupada em equilibrar as contas fiscais.
O autor acerta em enfatizar esse ponto com gráficos e tabelas.
Nas palavra de Lula: "“A gente vai ter que discutir com a Câmara e o Senado esse limite de gastos e vamos ver como é que a gente pode utilizar mais dinheiro para fazer mais benefícios para o povo”.
A frase expõe os problemas do pensamento de que é o gasto que resolve nossos problemas.
Giambiagi é taxativo nesse ponto: "Em poucas linhas, estão aí presentes todas as crenças simbólicas e profundas do PT em matéria fiscal: a defesa de que a solução dos problemas é o Estado gastar mais; a visão paternalista do papel do governo; a crença de que as regras não devem ser tão interpretadas ao pé da letra; e a incapacidade absoluta de conviver com qualquer noção de restrição orçamentária".
Ao contrário de obras passadas, nesta Giambiagi critica mais abertamente o PT - saiu da neutralidade.
O QUE EU ACHO
Senti falta da maior participação do autor nos eventos do livro.
Era uma das propostas misturar vida e obra.
E Giambiagi tem longa estrada para fazer isso.
Em alguns momentos ele o fez, o que agregou na obra, mas foram poucos momentos.
Não me agradou muito as críticas ao PT e a seus políticos.
Me explico: quem acompanha esse espaço sabe que eu também faço críticas a variados políticos, de esquerda, do centro e da direita.
Mas as críticas do livro me pareceram um pouco mais duras do que o normalmente visto em livros técnicos e analíticos.
Às vezes flertando com a crítica de caráter pessoal.
Isso é ruim porque Giambiagi prima pela análise econômica e críticas derivadas dela.
Outro detalhe é que o autor nos diz que o livro é para leigos em economia. Eu discordo um pouco desse ponto, pois a obra exige certo grau de entendimento em economia. Mas não é muito.
RESUMINDO
Esses pontos não comprometem a obra, que é agradável de ser lida.
O leitor sairá com conhecimento dos problemas econômicos do país, entenderá nosso passado e presente, e ficará assustado com o nosso futuro.
O futuro pode piorar se não fazermos o trabalho de casa.
A "Argentinização" nos espreita!
E também aprendemos o que fazer para voltarmos à estrada de crescimento econômico.
Enfim, é um livro educativo, que contribui para melhorar o debate econômico nacional.

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