terça-feira, 28 de julho de 2026

Resenha: História Econômica Global: Uma Breve Introdução (Robert C. Allen)

Passado econômico em 300 páginas

velha economia


História Econômica Global, a princípio, pode parecer um livro como os outros de história econômica, mas não é. Ele se propõe a explicar desde o passado dos países até os dias atuais em pouco mais de 300 páginas. Daí o subtítulo: Uma Breve Introdução.

E digo mais.

O livro também apresenta sua própria interpretação dos fatos e sintetiza ao fornecer uma resposta para a grande questão, talvez a maior da Ciência Econômica, de por que alguns países terem se tornado ricos e desenvolvidos, enquanto outros ficaram para trás

Por que isso aconteceu?

 

SOMOS POBRES POR CAUSA DISSO

Robert Allen nos diz que os países pobres são pobres porque utilizam tecnologias criadas pelos países ricos.

E essa tecnologia é construída para resolver e solucionar dilemas de países específicos.

Países pobres enfrentam outros dilemas.

Outro detalhe é que apenas copiar e replicar a tecnologia tem limites.

Claro, ajuda países retardatários a não ficarem muito para trás, mas eles não avançam – pois o avanço pertence a quem cria a tecnologia.

Foi assim na Revolução Industrial.

Continua assim na era da Inteligência Artificial.

 

POR QUE TECNOLOGIA?

Como leciono uma disciplina voltada para o crescimento econômico de longo prazo (Macroeconomia IV: Teorias de Crescimento), essa pergunta é fácil de responder.

Na Ciência Econômica, em meio a tantas desavenças entre economistas e pesquisadores – há quem diga que nós economistas somos uma tribo complicada de criar consensos (sempre suspeite de quem afirme que “os economistas dizem”; para um grupo de economistas, há sempre um teimoso dizendo o contrário) -, há um consenso fortíssimo.

No longo prazo (10, 15, 20 ou mais anos), países se tornam ricos e desenvolvidos por causa do progresso tecnológico. Eles têm que inovar, criar, mudar paradigmas – não precisa ser em todas áreas.

Outra forma de dizer quase o mesmo é afirmar que países precisam elevar a produtividade.

O aumento da produtividade permite que nações agrícolas, como a Nova Zelândia e a Austrália, se tornem ricas.

O livro acerta em colocar a inovação tecnológica e a produtividade no centro da questão.

 

NÃO SOMENTE A TECNOLOGIA

Três fatores explicam a separação dos ricos e dos pobres.

O primeiro eu antecipei: progresso tecnológico.

O segundo é a globalização: a integração de mercados, maior troca de bens e produtos, fluxos financeiros, fluxos migratórios e trocas de ideias. Países que se engajaram na globalização tenderam a ter desempenho melhor do que os que ficaram fechados; o caso extremo é a Coreia do Norte, talvez o país mais fechado do planeta.

O terceiro fator é a política econômica: conjunto de medidas que impulsionam países para a prosperidade.

Aqui a coisa ficou interessante – e irônica.

 

QUAIS POLÍTICAS?

São as seguintes políticas:

1) criação de um mercado nacional com infraestrutura de transporte (eliminar impostos discricionários; pense na idade medieval com os feudos limitando o comércio)

2) tarifas externas para proteger a indústria nacional (você leu corretamente, é o que o Trump tem feito atualmente)

3) criação de bancos para estabilizar a moeda e fornecer financiamento para empresas

4) massificação da educação formal

 

A obra mostra que quem seguiu esse receituário conseguiu sair da pobreza e se tornar rico.

Existe a fórmula. Falta implementar.

Olhemos para o Brasil.

Ainda estamos patinando na área da educação, com desempenhos medíocres em exames internacionais.

 

TRUMP?

Tenho um colega de trabalho que sempre critica os EUA pela hipocrisia que demonstram.

No passado, usaram protecionismo, leia-se tarifas, para se tornarem poderosos no setor industrial.

Uma vez atingido o objetivo e precisando de exportar mercadorias para novos mercados, o país passou a condenar o protecionismo.

Faz sentido: baixas tarifas facilitam a importação de mercadorias.

Então sim, os EUA são hipócritas nessa área ao defender o livre mercado. E Trump estaria resgatando essa política.

Como tenho escrito, eu continuo não concordando com o uso de tarifas para desenvolver a indústria.

 

DEIXE-ME EXPLICAR

Minha justificativa também se encontra no livro.

Somente tarifas é dar de presente o mercado nacional para produtores pouco eficientes.

É preciso impor metas juntamente com as tarifas. Caso contrário, as tarifas irão proteger empresas pouco eficientes (infelizmente esse é o caso do Brasil).

Países asiáticos e atualmente a China atrelaram políticas de proteção industrial com metas de exportação e produtividade. Empresas que batiam as metas continuavam com subsídios. Quem não batesse, perdia a regalia.

O ponto é atrelar uma mão ajudando com outra empurrando.

Fácil, não é? Por que não conseguimos aplicar essa política por aqui?

 

MUITA GENTE NA TERRA

O Brasil e tantos outros países são estagnados também por usarem tecnologias que não poupam o trabalho.

Esse ponto merece atenção.

No passado, países como a Inglaterra tinham salários mais altos. Então existia o incentivo para o setor produtivo usar maquinário que substituísse (ou aumentasse muito a produtividade) do trabalho. Assim, empregava-se menos trabalhadores enquanto a produção se expandia – permitia reduzir o custo salarial.

Em países com abundância de trabalhadores e, por conta disso, baixo salário, não existia o mesmo incentivo. Então empresários não tinham como prioridade utilizar tecnologia que poupasse trabalho.

Máquinas que poupam trabalho envolvem maior intensidade de capital.

Tornou-se possível expandir a produção, a produtividade e os salários com o aperfeiçoamento do capital – de novo, é a tecnologia feita pelos países ricos e para os ricos.

 

AQUI NA AMÉRICA

Allen não foge da questão da América Latina.

Por que não ficamos ricos?

Além da falta de progresso tecnológico e dos tropeços do kit de políticas (as 4 medidas anteriores), temos uma enorme desigualdade de renda.

Tão brutal que ela impede o desenvolvimento de mercados.

Tivemos o desafio adicional da escravidão.

Em termos econômicos, a entrada de escravos barateou ainda mais a mão de obra, reduzindo o incentivo de adotar tecnologias que poupam o trabalho.

Na África, especificamente em Zimbábue, por exemplo, no ano de 2000, 4.500 fazendeiros brancos possuíam 11 milhões de hectares das melhores terras do país, enquanto 1 milhão de famílias africanas viviam com 16 milhões de hectares. Esse tipo de desigualdade é um fatality para o desenvolvimento econômico.

 

PARA FINALIZAR

O livro ilumina em muitas questões.

Acredito que há controvérsias também, como a afirmação de que, sem as tarifas protecionistas no século XIX, os EUA não teriam se industrializado, pelo contrário, teriam se desindustrializado, pois as manufaturas da Inglaterra teriam enxurrado o mercado norte-americano.

É sempre difícil fazer esse exercício contrafactual: como voltar no tempo e mostrar o que teria ocorrido?

A obra presta grande serviço ao contextualizar o atraso econômico na América Latina, na África e em partes da Ásia com a desigualdade de renda e com o passado colonial. São difíceis de serem superados.

Como todo bom livro, controvérsias aparecem e fomentam mais debate. Para os iniciantes em história econômica, essa obra é um ótimo começo.

 

 

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