Passado econômico em 300 páginas
História Econômica Global, a princípio, pode parecer um livro
como os outros de história econômica, mas não é. Ele se propõe a explicar desde
o passado dos países até os dias atuais em pouco mais de 300 páginas. Daí o
subtítulo: Uma Breve Introdução.
E digo mais.
O livro também apresenta sua própria
interpretação dos fatos e sintetiza ao fornecer uma resposta para a grande
questão, talvez a maior da Ciência Econômica, de por que alguns países terem se
tornado ricos e desenvolvidos, enquanto outros ficaram para trás.
Por que isso aconteceu?
SOMOS POBRES POR CAUSA DISSO
Robert Allen nos diz que os países pobres
são pobres porque utilizam tecnologias criadas pelos países ricos.
E essa tecnologia é construída para
resolver e solucionar dilemas de países específicos.
Países pobres enfrentam outros dilemas.
Outro detalhe é que apenas copiar e
replicar a tecnologia tem limites.
Claro, ajuda países retardatários a não
ficarem muito para trás, mas eles não avançam – pois o avanço pertence a quem
cria a tecnologia.
Foi assim na Revolução Industrial.
Continua assim na era da Inteligência
Artificial.
POR QUE
TECNOLOGIA?
Como leciono uma disciplina voltada para o
crescimento econômico de longo prazo (Macroeconomia IV: Teorias de Crescimento),
essa pergunta é fácil de responder.
Na Ciência Econômica, em meio a tantas
desavenças entre economistas e pesquisadores – há quem diga que nós economistas
somos uma tribo complicada de criar consensos (sempre suspeite de quem afirme
que “os economistas dizem”; para um grupo de economistas, há sempre um teimoso
dizendo o contrário) -, há um consenso fortíssimo.
No longo prazo (10, 15, 20 ou mais anos),
países se tornam ricos e desenvolvidos por causa do progresso tecnológico.
Eles têm que inovar, criar, mudar paradigmas – não precisa ser em todas áreas.
Outra forma de dizer quase o mesmo é
afirmar que países precisam elevar a produtividade.
O aumento da produtividade permite que
nações agrícolas, como a Nova Zelândia e a Austrália, se tornem ricas.
O livro acerta em colocar a inovação
tecnológica e a produtividade no centro da questão.
NÃO SOMENTE A
TECNOLOGIA
Três fatores explicam a separação dos ricos
e dos pobres.
O primeiro eu antecipei: progresso
tecnológico.
O segundo é a globalização: a
integração de mercados, maior troca de bens e produtos, fluxos financeiros,
fluxos migratórios e trocas de ideias. Países que se engajaram na globalização
tenderam a ter desempenho melhor do que os que ficaram fechados; o caso extremo
é a Coreia do Norte, talvez o país mais fechado do planeta.
O terceiro fator é a política econômica:
conjunto de medidas que impulsionam países para a prosperidade.
Aqui a coisa ficou interessante – e
irônica.
QUAIS POLÍTICAS?
São as seguintes políticas:
1) criação de um mercado nacional com
infraestrutura de transporte (eliminar impostos discricionários; pense na idade
medieval com os feudos limitando o comércio)
2) tarifas externas para proteger a
indústria nacional (você leu corretamente, é o que o Trump tem feito
atualmente)
3) criação de bancos para estabilizar a
moeda e fornecer financiamento para empresas
4) massificação da educação formal
A obra mostra que quem seguiu esse
receituário conseguiu sair da pobreza e se tornar rico.
Existe a fórmula. Falta implementar.
Olhemos para o Brasil.
Ainda estamos patinando na área da
educação, com desempenhos medíocres em exames internacionais.
TRUMP?
Tenho um colega de trabalho que sempre
critica os EUA pela hipocrisia que demonstram.
No passado, usaram protecionismo, leia-se
tarifas, para se tornarem poderosos no setor industrial.
Uma vez atingido o objetivo e precisando de
exportar mercadorias para novos mercados, o país passou a condenar o
protecionismo.
Faz sentido: baixas tarifas facilitam a
importação de mercadorias.
Então sim, os EUA são hipócritas nessa área
ao defender o livre mercado. E Trump estaria resgatando essa política.
Como tenho escrito, eu continuo não concordando com o uso de tarifas para desenvolver a indústria.
DEIXE-ME EXPLICAR
Minha justificativa também se encontra no
livro.
Somente tarifas é dar de presente o mercado
nacional para produtores pouco eficientes.
É preciso impor metas juntamente com as
tarifas. Caso contrário, as tarifas irão proteger empresas pouco eficientes
(infelizmente esse é o caso do Brasil).
Países asiáticos e atualmente a China
atrelaram políticas de proteção industrial com metas de exportação e
produtividade. Empresas que batiam as metas continuavam com subsídios. Quem
não batesse, perdia a regalia.
O ponto é atrelar uma mão ajudando com
outra empurrando.
Fácil, não é? Por que não conseguimos
aplicar essa política por aqui?
MUITA GENTE NA
TERRA
O Brasil e tantos outros países são
estagnados também por usarem tecnologias que não poupam o trabalho.
Esse ponto merece atenção.
No passado, países como a Inglaterra tinham
salários mais altos. Então existia o incentivo para o setor produtivo usar maquinário
que substituísse (ou aumentasse muito a produtividade) do trabalho. Assim,
empregava-se menos trabalhadores enquanto a produção se expandia – permitia
reduzir o custo salarial.
Em países com abundância de trabalhadores
e, por conta disso, baixo salário, não existia o mesmo incentivo. Então
empresários não tinham como prioridade utilizar tecnologia que poupasse
trabalho.
Máquinas que poupam trabalho envolvem maior
intensidade de capital.
Tornou-se possível expandir a produção, a
produtividade e os salários com o aperfeiçoamento do capital – de novo, é a
tecnologia feita pelos países ricos e para os ricos.
AQUI NA AMÉRICA
Allen não foge da questão da América
Latina.
Por que não ficamos ricos?
Além da falta de progresso tecnológico e
dos tropeços do kit de políticas (as 4 medidas anteriores), temos uma enorme
desigualdade de renda.
Tão brutal que ela impede o desenvolvimento
de mercados.
Tivemos o desafio adicional da escravidão.
Em termos econômicos, a entrada de escravos
barateou ainda mais a mão de obra, reduzindo o incentivo de adotar tecnologias
que poupam o trabalho.
Na África, especificamente em Zimbábue, por
exemplo, no ano de 2000, 4.500 fazendeiros brancos possuíam 11 milhões de
hectares das melhores terras do país, enquanto 1 milhão de famílias africanas
viviam com 16 milhões de hectares. Esse tipo de desigualdade é um fatality para
o desenvolvimento econômico.
PARA FINALIZAR
O livro ilumina em muitas questões.
Acredito que há controvérsias também, como
a afirmação de que, sem as tarifas protecionistas no século XIX, os EUA não
teriam se industrializado, pelo contrário, teriam se desindustrializado, pois
as manufaturas da Inglaterra teriam enxurrado o mercado norte-americano.
É sempre difícil fazer esse exercício
contrafactual: como voltar no tempo e mostrar o que teria ocorrido?
A obra presta grande serviço ao
contextualizar o atraso econômico na América Latina, na África e em partes da
Ásia com a desigualdade de renda e com o passado colonial. São
difíceis de serem superados.
Como todo bom livro, controvérsias aparecem
e fomentam mais debate. Para os iniciantes em história econômica, essa obra é
um ótimo começo.

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