Oriente Médio deixará de ser palco de guerras motivadas por petróleo
Nessa semana eu me deparei com a figura abaixo, extraída do artigo de Tomás Domínguez-Iino, Jonathan T. Elliott e Allan Hsiao, disponível no NBER.
A figura mostra a concentração da produção de petróleo e gás natural (as duas primeiras colunas). Na primeira coluna, podemos notar que a Arábia Saudita, a Rússia e os EUA concentram 0.4 (40%) de todo o petróleo.
A segunda coluna mostra que o gás natural está concentrado no Irã, na Rússia e nos EUA, em 45%.
Como todo o planeta precisa de petróleo e de gás natural, não espanta que muitos conflitos envolvam essas nações.
AGORA A NOVIDADE
A figura também mostra que apenas 3 países concentram 70% da produção de níquel (Rússia, Filipinas e Indonésia). A coluna mostra que a Indonésia é a principal produtora.
No caso do cobalto, 80% da produção total está na Austrália, Indonésia e na República Democrática do Congo (RDC). A RDC possui, de longe, as maiores reservas.
Por fim, 85% do lítio está na Argentina, no Chile e na Austrália. A Austrália tem posição dominante.
Por que isso é importante?
Ora!
A economia global vai girar, nas próximas décadas, em torno da transição energética baseada na energia renovável.
E a produção dessa energia depende de minerais críticos, como o níquel, o cobalto e o lítio.
Não há transição energética sem esses minerais críticos.
E eles são mais concentrados do que os combustíveis fósseis (petróleo e gás natural).
UM EXEMPLO:
As baterias lítio-ferro-fosfato (LFP), níquel-manganês-cobalto (NMC) e níquel-cobalto-alumínio (NCA), como os próprios nomes indicam, usam minerais críticos.
Sem níquel, cobalto e lítio, elas não poderiam ser produzidas!
E todo o sistema de transporte voltado para descarbonização e armazenamento de energias solar e eólica usam essas baterias.
Se você tem carro elétrico, provavelmente ele utiliza uma dessas baterias.
Sim, os carros elétricos deixariam de existir sem essas baterias.
GUERRAS?
No passado, como a Primeira Guerra Mundial, um dos motivos do conflito foi as reservas de carvão.
Com a transição energética do carvão para o petróleo, os conflitos passaram a ocorrer na geografia dos grandes produtores.
Na próxima transição energética, para os renováveis, para onde o senhor acha que os conflitos irão se deslocar?
A figura acima nos dá algumas pistas.
Na verdade, os conflitos já estão se alterando.
Veja a contenda interminável entre ucranianos e russos, iniciada em 2022.
Há quem diga que a Rússia não está conseguindo muita coisa na guerra (eu já fiz tal assertiva, mas a desfiz).
O fato é que a Rússia tem ocupado terras riquíssimas em minerais críticos.
ESTOU SENDO PESSIMISTA DEMAIS?
Quem sabe acordos multilaterais, como o assinado entre a Austrália (produtora de lítio) e os EUA, possam minimizar a probabilidade de conflitos.
Pode ser.
Mas como leitor de Freud e de Nietzsche, e concordando com eles a respeito de nossa natureza litigiosa, leia-se: gostar e procurar de conflitos, não acho que eles irão sumir do mapa.
Freud dizia que nossa insatisfação e mal estar advêm das regras de sociedade, as quais somos obrigados a seguir. Não podemos ser violentos com nossos vizinhos, ainda que desejemos. Há, em outras palavras, um desejo latente por violência.
Nietzsche, por outro lado, caçoou de seus leitores quando eles saudavam os "novos tempos de harmonia e paz", com países europeus reduzindo o orçamento militar. Ele dizia que essas pessoas não conheciam a natureza humana. Bem, ele escreveu isso antes das duas guerras mundiais...
VOLTAS E VOLTAS
Que deixemos esses dois senhores e voltemos à discussão.
Independentemente se o que estou escrevendo faz ou não sentido, o ponto é que muito provavelmente a geopolítica irá mudar.
Os grandes produtores de minerais críticos irão ganhar relevância e atenção.
O mundo precisa de seus recursos.
Mas isso também é uma oportunidade para eles.
Eles possuem recursos em altíssima demanda e extremamente estratégicos - podem usá-los para alavancar suas posições geopolíticas.
Assim têm feito alguns países árabes, como a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar.
Outros países, como a Rússia e o Irã, não conseguiram fazer essa transição.
O Brasil tem terras raras - teremos mais uma oportunidade para se tornar o país do futuro.

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