Desaceleração da economia reduz emissões de gás carbono
Nós sabemos que a taxa de juros Selic afeta toda a economia brasileira.
Mal o banco central sobe ou a reduz, há uma enxurrada de reportagens mostrando como a Selic afeta a indústria, o mercado de trabalho e o seu bolso.
Sim, nosso bolso é afetado - tanto diretamente quanto indiretamente.
Diretamente se você é um poupador e investidor (neste texto aqui, eu argumento porque deveríamos nos tornar poupadores). Neste caso, títulos de renda fixa irão remunerar um pouco mais o capital investido (se a Selic subir ou estiver alta).
Indiretamente porque, ao afetar a economia, a Selic também irá o afetar (economia crescendo pouco gera menos renda, reduz nossa probabilidade de elevar nosso rendimento).
Mas como exatamente a Selic se espalha?
Vamos supor que o banco central elevou a taxa de juros Selic.
O custo de crédito e do investimento irá subir, reduzindo a lucratividade futura de empresas.
Isso será sentido no mercado de ações, o Ibovespa, que irá perder valor - investidores se antecipam à futura perda de lucratividade e vendem parte de suas ações.
Dica: o mercado de ações está sempre olhando para o futuro, por isso que é difícil lucrar com transações diárias, o famoso day trade. Você teria de conseguir ver algo que todos os fundos, corretoras e analistas não estão vendo.
Outro efeito é sobre a taxa de câmbio. A Selic mais alta torna atrativo o investimento no Brasil.
Estrangeiros podem colocar parte de seus capitais por aqui.
A entrada de moeda estrangeira faz com que o câmbio se aprecie: há queda do câmbio.
Note então que o aumento da Selic:
i) elevou o custo de investimento e de crédito
ii) reduziu o valor do Ibovespa
iii) aprecia o câmbio
Os pontos i e ii podem facilmente fazer com que o PIB do país se reduza.
O ponto iii pode fazer isso por conta da queda das exportações: um câmbio apreciado prejudica os exportadores.
Como?
Com a apreciação cambial, importadores (são os estrangeiros) perdem poder de compra: antes conseguiam mais reais ao trocar suas moedas.
A apreciação cambial reduz isso.
Então o ponto iii enfraquece a economia também.
Então a Selic reduz o crescimento da produção, do PIB.
Tudo para por aqui?
Ainda não.
A queda do PIB irá reduzir as emissões de gás carbono, pois parte dessas emissões são derivadas da própria economia, da forma como ela opera.
Então o aumento da Selic também afeta as emissões de gás carbono.
Embora o efeito, diga-se de passagem, seja pequeno.
(Não compensa argumentar que bancos centrais deveriam usar a taxa de juros para combater a mudança climática).
Eu e os professores João Ricardo Faria e André Mollick mostramos toda essa narrativa no artigo Do Monetary Policy Shocks Affect CO2 Emissions? Evidence from Brazil, publicado na revista Economies.
(TRADUÇÃO: Choques da política monetária afetam as emissões de gás carbono? Evidência para o Brasil).
Também mostramos que quando o banco central dos EUA sobe a sua taxa de juros, o banco central brasileiro reage, subindo a sua. E as emissões de gás carbono por aqui são reduzidas por conta disso.
Sim, é um efeito indireto da política monetária dos EUA.
Como eu falo em alguns textos, praticamente tudo na economia é conectado, tudo se afeta e é afetado.
Nós mostramos que isso é verdade para o caso da taxa de juros Selic.
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Fiz um vídeo para o canal Velha Economia no Youtube:

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