2 Princípios para entender economia: Tudo tem um custo e tudo pode ser alocado em diferentes lugares
Todo campo da ciência possui princípios que ajudam a compreender todo o resto. Isso não é diferente na Ciência Econômica. Daí a importância de ter uma base ao iniciar estudos em quaisquer outros campos do conhecimento.
Sem o conhecimento desses princípios, todo o resto pode se tornar muito difícil de ser compreendido.
Vou apresentar dois princípios essenciais para entender economia.
PRINCÍPIO 1:
Um dos principais princípios da economia é o conhecido como trade-off.
O trade-off mostra que toda decisão, escolha e política carregam tanto um custo quanto um benefício.
Não tem para onde correr: sempre iremos arcar com custos.
Assim temos uma consequência da existência de trade-offs: tudo tem um custo.
"Não existe almoço grátis", nos ensina Milton Friedman.
Ao contrário de outras áreas, na economia nós usamos o custo de oportunidade.
Por exemplo, suponha que você tenha um terreno no valor de 100 mil reais.
Caso decida mantê-lo, todo ano você arca com um custo de mais ou menos 10 mil reais, pois é o que você receberia caso vendesse o terreno e aplicasse o capital em um ativo financeiro (de pouco risco, como o Tesouro Selic 2031 - eu coloquei 10 mil reais líquidos, já descontando taxas de aplicações e imposto de renda).
Você pode argumentar que o terreno se valorizaria. Verdade.
A estimativa é de que os imóveis, na média do país, subiram 6.5% no ano passado.
Neste caso, o terreno passaria a valer 100 mil reais mais 7% (vou arredondar para facilitar), o que daria 107 mil reais. Esse é o benefício de manter o terreno: sua valorização.
Acabou? Eu diria que não, pois no Brasil temos o imposto sobre os proprietários de imóveis, o IPTU. Dependendo do município, o valor do imposto varia.
De toda forma, conseguiu entender o meu ponto?
Toda decisão carrega custos e vantagens.
Mesmo a indecisão! Não decidir também é uma decisão!
A omissão, ou o fazer nada, também é uma decisão!
Ainda que passiva.
E a economia sempre cobra o preço.
Sempre meu caro, não tem como fugir - e muitos tentam fugir.
Que voltemos ao exemplo do terreno.
Você me questionaria novamente: mas Luccas, se a pessoa mantém o terreno, ela não está pagando 10 mil reais.
Está?
Não, não está.
Por isso que usamos o termo CUSTO DE OPORTUNIDADE.
(Dica: para discutir bem assuntos econômicos, precisamos saber e dominar esse termo, custo de oportunidade).
O ponto é que se esse indivíduo mantém o terreno, ele irá se valorizar para 107 mil reais, mas esse mesmo indivíduo poderia estar recebendo 10 mil reais líquidos.
Poderia!
Portanto, esse indivíduo tem o custo de oportunidade de 10 mil reais.
Mais contas: com a valorização do terreno, de 100 mil reais para 107 mil reais, essa pessoa tem um ganho de capital de 7 mil reais.
Mas o custo de oportunidade, como vimos, é de 10 mil reais.
O benefício é a valorização de 7 mil reais.
O custo é de 10 mil reais.
Logo, há um prejuízo de 3 mil reais! (7 mil reais menos 10 mil reais).
What?!
Mais questionamentos?
Ok, vamos lá.
Esse indivíduo não perdeu 3 mil reais.
Na verdade, se ele manteve o terreno, ele está agora com 107 mil reais.
Mas economistas, sem dúvidas uma tribo confusa, conflituosa e exótica, usam (corretamente) o termo custo de oportunidade.
Por que nós estamos sempre comparando situações e cenários!
O terreno fornece cenários:
a) manter o terreno e possuir 107 mil reais.
b) vender o terreno, aplicar o capital e possuir 110 mil reais.
Logo, do ponto de vista puramente econômico, essa pessoa não está tomando a melhor decisão, pois há uma alternativa com maior benefício, maior rendimento.
E é assim nossas vidas e nossas decisões financeiras.
Tudo com o seu devido custo - ainda que um pouco escondido.
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PRINCÍPIO 2:
Agora podemos chegar em outro importantíssimo princípio: a economia é a alocação de recursos escassos com aplicações alternativas.
Vamos por partes.
Vimos que todas decisões carregam diferentes cenários. Isso é a parte "aplicações alternativas".
Mais um exemplo para ajudar? Vamos lá.
Imagine uma pessoa que deseja aumenta sua renda futura.
Sabiamente, essa pessoa decide se qualificar.
Talvez fará uma pós graduação ou cursos qualificantes.
Em outras palavras, essa pessoa irá estudar mais - passará mais horas lendo, escrevendo, digitando, respondendo.
Se essa pessoa trabalha de manhã e de tarde, ela terá de fazer o curso durante a noite (o dia ficará sem dúvidas corrido).
E se ela não fizesse essa qualificação?
Ora, ela poderia ir para a academia exercitar o corpo, assistir séries na Apple TV, dormir mais cedo ou praticar algum hobby.
(Ela também poderia trabalhar à noite um pouco mais e obter renda extra - assim ela tem o custo de não receber essa renda extra).
Isso tudo é o custo de oportunidade.
Essa pessoa abre mão dessas amenidades em prol da qualificação.
Essa pessoa reduz o seu lazer e aumenta o trabalho (eu considero estudar um trabalho).
Veja que o tempo dessa pessoa tem aplicações alternativas: ela pode ter lazer ou mais trabalho.
A economia funciona dessa forma.
O tempo é algo interessante.
É um recurso escasso, apesar de todo dia termos as 24 horas.
Temos as mesmas 24 horas todos os dias mas terminamos, muitas vezes, reclamando da falta de tempo.
Soa paradoxal?
O tempo, portanto, é um recurso.
Veja que essa pessoa escolheu alocar o seu tempo (recurso) em mais estudo e reduzir o tempo (recurso) em lazer.
Essa pessoa fez uma alocação.
Que voltemos ao caso do indivíduo com o terreno.
Se esse indivíduo vendesse o terreno e alocasse o recurso para ativos financeiros, teria 110 mil reais.
Alocar é a palavra.
Palavra importante para discutir economia!
Tudo na economia parte de alocações com usos alternativos.
Tudo.
O governo pode decidir construir novas escolas, hospitais e centros recreativos.
Ele pode alocar o seu recurso nesses itens.
Mas como recursos são escassos, outras áreas ficarão sem recursos.
Como sabemos que tudo tem um custo, a dívida pública iria subir, o pagamento de juros iria subir - é desejável?
Quando discutimos políticas econômicas, sempre temos de ter em mente os termos alocar, recursos escassos e custos.
Não tem como fugir deles!
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Caro leitor, caso domine os dois princípios desse texto, 1) trade-offs e custo de oportunidade e 2) alocações de recursos em usos alternativos, você estará no caminho para discutir economia de forma precisa e apurada.
Discussões boas e que realmente contribuem para o nosso conhecimento geralmente precisam de uma boa base, um bom ponto de partida.
São os princípios.
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