quarta-feira, 11 de março de 2026

Artigo Rejeitado

Não é o fim do mundo: é uma oportunidade

velha economia


Todo pesquisador já passou por isso: o artigo foi rejeitado

Como toda rejeição, não é uma sensação muito agradável.

Na vida acadêmica, essa rejeição vem acompanhada por um texto justificando a decisão. 

É um toco com parecer!

Mas eis que aí reside a oportunidade.


SOMOS VIESADOS

Como nos ensina os professores e pesquisadores de economia comportamental, em especial Daniel Kahneman, nós sofremos de vários vieses.

Vieses que misturam nossas percepções e anseios com a realidade.

Já percebeu que quando desejamos algo, passamos a ver mais oportunidades e coisas relacionadas a esse algo? 

É que nós vemos o mundo da forma como queremos ver, não necessariamente como ele é de fato.

Nós pesquisadores temos o viés do autor: a obra é boa porque nós somos os autores dela.

Simples assim.

Ok, você pode me questionar: e se a obra for realmente boa?

E se o artigo construído com tanto esforço, horas abdicadas de lazer e tempo dentro do laboratório merecer honras?

Pode ser o caso.

Meu ponto é que, por probabilidade, você atribuirá maior mérito do que de fato seria adequado.

Em outras palavras, a decepção por uma possível rejeição pode ser maior do que o que seria caso não tivéssemos esse viés.


CADE A OPORTUNIDADE?

Seguindo o texto que escrevi sobre o segredo do sucesso, se o pessoal do motivacional está correto, essa rejeição o fará refletir mais sobre o artigo.

Sobre os pontos frágeis.

Nem sempre conseguimos detectar esses detalhes.

Detalhes tão pequenos de nós dois, dizia o Rei. 

Lembre-se que um artigo científico não esgota o assunto.

O artigo é uma estratégia de mitigar erros e problemas para avançar em uma hipótese.

Todo artigo tem fragilidades

A questão é fortalecê-las, mostrar que elas não comprometem o argumento. 

A rejeição ajuda a esmiuçar esse ponto.

A rejeição nos desafia. 

Teremos de trabalhar um pouco mais, refletir um pouco mais sobre o método empírico.

Teremos de trabalhar e estudar mais.

Teremos de nos tornar melhores autores nesse artigo em particular.


A JORNADA É LONGA

E aqui reside talvez a principal recompensa da rejeição.

Você se tornará um melhor pesquisador caso aceite a rejeição e trabalhe no aprimoramento do artigo. 

Por quê?

Ora, talvez a única forma de nos tornarmos melhores profissionais é... trabalhando mais, estudando mais, gastando mais tempo na tarefa.

E a rejeição nos leva a esse ciclo. 

Ainda que o artigo merecesse ser aceito e publicado - e não se engane, inúmeros artigos são dignos de serem aceitos e não rejeitados (a vida acadêmica tem esse problema, ela rejeita bons artigos) -, a rejeição irá o levar a fortalecer algo que já pode estar em bom nível.

No final, além do artigo aprimorado, você também estará melhor do que antes da rejeição.

Você trabalhou mais, colocou mais esforço.

Portanto, o resultado adicional é que você também melhorou como material de pesquisa. 


ENTÃO DEVEMOS COMEMORAR REJEIÇÕES?

Eu não chegaria a tanto, mas há uma parte das rejeições que devem ser comemoradas.

Pense nos 'nãos' e rejeições ao longo de sua vida.

Acredito que algumas dessas negativas o ajudou a melhorar como pessoa e como profissional.

A humildade pode ser um dos ganhos: como ser arrogante acumulando rejeições?

(Ok, há arrogantes, mas se atente ao meu ponto)

Com humildade, estaremos ainda mais aptos a aproveitarmos o artigo rejeitado.

Iremos aceitar as críticas, avaliá-las e incorporá-las.

E assim o ciclo que mencionei irá ocorrer: mais trabalho irá o tornar um melhor pesquisador.

Como pessoa, a humildade pode nos levar a ouvir mais o outro, a aceitar críticas e feedbacks.

Nunca estamos sempre certos.

As rejeições nos mostram isso. 


QUE CONTINUEMOS

Quanto mais observo outros profissionais, colegas de profissão e minha própria trajetória, tendo a considerar que o suor vale mais do que o talento

O artigo rejeitado o fará suar mais.

Esse suor irá aumentar o seu talento, dado que o talento pode nascer da consistência e da disciplina.

Pareço um pouco idealizador?

Que seja!

(Já fui criticado por romantizar o sofrimento)

Rejeições podem ser vistas também como sofrimento.

Podemos criticar os avaliadores e desprezá-los (apesar de serem anônimos). 

Se recusar a alterar os pontos criticados.

Neste caso, não há esforço adicional - mas o artigo poderá ficar parado e não ser publicado.

Podemos aceitar as críticas e trabalhar nelas.

Usar o "sofrimento" da rejeição para continuar avançando. 

Eu sempre optei por esse caminho.

E não me arrependo.


CONCLUINDO

A vida acadêmica é estressante e cansativa.

As rejeições de artigos pioram ainda mais esse cenário porque nos negam justamente a pequena glória que poderíamos ter. 

Mas esse não precisa ser o final.

Se você continuar trabalhando no artigo, acumulando rejeições, eu garanto (por probabilidade) que em algum momento ele será publicado.

E digo e repito: a principal recompensa não será a publicação.

Será o seu aperfeiçoamento como pesquisador. 

















 



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