Tampouco alto padrão de consumo é sinal de riqueza
As bets foram proibidas recentemente.
Decisão polêmica, que agradou e desagradou milhares de pessoas.
Todavia, é consenso que as bets se tornaram um problema.
Alguns anos atrás, quando foram regulamentadas, quem diria que hoje seriam responsáveis pelas ruínas de famílias?
Que brasileiros perderiam suas poupanças e salários em apostas?
É sempre difícil prever o futuro - principalmente de políticas públicas.
Muitas coisas ocorrem simultaneamente.
UM GRANDE PROBLEMA
Muitos brasileiros consideram as bets um tipo de investimento.
Não é.
Passa longe disso.
Não muito tempo atrás, o jogo do tigrinho era visto como forma de fazer dinheiro.
O jogo enganava o apostador ao conceder vitórias no início. Uma ilusão que seria explorada tempo depois quando o apostador tivesse se tornado viciado no jogo.
O viciado é sempre uma vítima de apostas.
Muitos influencers fizeram (e fazem) campanha para a disseminação das bets.
Há inúmeros anúncios, inclusive durante jogos de futebol.
EDUCAÇÃO FINANCEIRA
Eu acredito que não teríamos esse problema com as bets se tivéssemos educação financeira.
Em primeiro lugar, a educação financeira mostraria que bets não é um investimento. Bets são uma aposta. E como toda aposta, é a banca, o dono do jogo, quem sai ganhando.
(os desenhos infantis erraram ao mostrar que o bandido roubava o banco para ficar rico - ter o banco é o que faz as pessoas ricas).
Em segundo lugar, a educação financeira nos informaria o que é investimento: plano consistente de aumento de renda por meio de aportes regulares de renda. O investimento tende a crescer com o tempo de acordo com fundamentos econômicos.
Por exemplo, ao investir em um título público, você sabe que o seu dinheiro (no caso, capital) irá aumentar porque há o contrato de recebimento de juros ao longo do tempo.
As bets prometem muito, mas entregam quase nada.
Entregam dopamina barata e perda de renda.
Lembre-se que dopamina é o hormônio do prazer, muito usado pelas redes sociais para prender nossa atenção.
TEMOS PROBLEMAS?
Talvez muitos indivíduos recorram às bets como escapismo: fugir de problemas e "driblar" incômodos momentâneos.
Bem, é o que grande parte das pessoas fazem com as redes sociais: perdem horas e horas navegando.
Ao menor sinal de tédio, corre-se ao celular para fugir desse incômodo.
Agora, além das redes sociais, temos as bets.
Quem diria que humanos seriam ávidos para se tornarem escravos da tecnologia?
Meu ponto é: talvez o uso das bets esteja escondendo algo particular que temos.
Talvez o tédio, falta de emoção, tristeza. Independentemente do que seja, a dopamina de pensar que poderá ganhar a aposta, a ansiedade com o ganho, a expectativa, são emoções que substituem incômodos.
Daí o vício disseminado com as bets.
MAIS UM ERRO DE JULGAMENTO
Outra evidência de falta de educação financeira é considerar que a compra de carro novo, uma casa bonita e viagens no exterior são sinais de riqueza.
Não são!
A compra de carros, casas e passagens de avião apenas mostram o gasto da pessoa, mostram o que foi subtraído de suas rendas e patrimônio.
Se uma pessoa comprou um carro por 150 mil reais, apenas sabemos que ela terá menos 150 mil reais no seu patrimônio. Nada mais. Ir mais do que isso é pura imaginação.
Então a frase "fulano é rico por andar de carro tal, ter a casa x e viajar para o exterior" está incorreta. Estamos vendo apenas o padrão de consumo.
E se tudo isso foi adquirido por dívidas? Pela queima de patrimônio?
Você diria que essa pessoa ficou mais rica?
Novamente, vejo o glamour com carros novos, casas grandes e viagens no exterior, no Brasil, como sinais de falta de educação financeira.
Muito louvor ao consumo!
POR QUE COMPRAMOS BENS DE LUXO?
Penso que parte da compra de coisas caras decorre da busca por validação social, status, pertencimento.
A insegurança pessoal pode ser contrabalanceada, mascarada, escondida, pela compra de bens que causam a admiração.
Veja que se esse é o caso, estaríamos também caindo na armadilha de compensar problemas internos com coisas externas, algo parecido com o uso das bets.
ENTÃO O QUE É RIQUEZA?
Riqueza é o aumento do patrimônio com o controle de nossas despesas.
De nada adianta elevar nosso patrimônio se nossos gastos também crescem. Em um momento, o gasto crescente iria exigir partes do patrimônio.
Um exemplo para ilustrar a ideia:
Imagine que o senhor "segure os cintos" tenha uma despesa mensal de 3.000 reais e um patrimônio de 300 mil reais. Este senhor segura o seu consumo, não deixando-o aumentar nos próximos 5 anos. Se investir tudo no Tesouro Selic 2031, ele teria um rendimento anual de aproximadamente 30 mil reais. Como ele é um poupador, ele pode reinvestir os juros ganhos, potencializando o seu patrimônio. Note que em pouco tempo os juros advindos do seu patrimônio conseguirão pagar todas as suas despesas. Isso é independência financeira.
Por outro lado, note que o senhor "aproveite a vida" tem o mesmo patrimônio de 300 mil reais, mas com despesa de 3.000 reais, a qual se eleva em 1.000 reais todo o ano. Por que? O "aproveite a vida" nos diz que temos de curtir a vida, que não devemos somente poupar - esse é um dos principais argumentos de quem não tem o hábito de poupar.
Em 5 anos, a despesa do "aproveite a vida" estará na casa dos 8.000 reais. O seu patrimônio não conseguiria acompanhar esse gasto crescente. Embora tanto o "segure os cintos" quanto o "aproveite a vida" tenham o mesmo patrimônio, a situação financeira é muito distinta.
O "segure os cintos", em breve, poderá parar de trabalhar, viver de juros. Ele pode não usufruir de carrões, mansões e viagens no exterior como o "aproveite a vida", mas terá segurança financeira. Qual dos dois é rico?
Minha avaliação é que a maioria das pessoas considera o "aproveite a vida" rico, porque elas interpretam, incorretamente, gasto como riqueza. Gasto não é riqueza.
A VIDA DO POUPADOR
Poupar requer segurar o consumo, fazer aportes regulares em investimentos e ter paciência.
O poupador pode ter um carro legal, uma casa bonita e fazer viagens interessantes. O que ele não consegue é fazer tudo ao mesmo tempo, com gastos elevados, e ainda poupar.
Tenho colegas que trocam frequentemente de carros (sempre melhorando o carro; leia-se, adquirindo carros mais caros), pagam alugueis altos e que viajam para o exterior anualmente. Essas mesmas pessoas reclamam de não sobrar dinheiro para poupar!
Ora!
Há poucos Vorcaros no planeta.
Gastar, gastar e gastar é incompatível com poupar.
Poupar requer equilíbrio e dizer nãos. É difícil em um mundo que nos empurra para consumir. E agora temos as bets como desafio adicional.
Disponibilizei um curso de educação financeira aqui, talvez possa ajudar.
Também fiz um vídeo no YouTube sobre bets:

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