Ferramentas econômicas podem ajudar a resolver desafios energéticos e climáticos
A resenha desse livro demorou! Eu discuto economia energética, publico sobre o tópico, faço vídeos e textos, mas ainda não tinha lido um livro texto.
Agora essa lacuna se foi!
Economia energética é a interação de relações e leis econômicas com conceitos de energia. Esse ramo do conhecimento vem crescendo muito, dada a importância de discutirmos soluções para o desafio ambiental: a mudança climática.
Desta forma, a economia energética dialoga com desafios contemporâneos, mostrando como o funcionamento de economias pode afetar e ser afetado pela transição energética e pelo aquecimento global.
Como o livro tem 13 capítulos, farei breves considerações de cada capítulo com alguns pitacos.
1. POLÍTICA ENERGÉTICA
Esse é um termo central na Economia Energética, pois em última instância nós queremos políticas para lidar com as pautas energéticas e ambientais.
Como eu discuto extensivamente neste espaço, a transição energética, por exemplo, é uma política - na verdade, a principal política para fazermos o planeta parar de ficar cada vez mais quente.
A política energética ideal deveria entregar 3 objetivos:
i) garantir a oferta de energia (nada de blackouts)
ii) contribuir para a competitividade internacional do país
iii) conciliar o uso de energia com objetivos ambientais
Poucas políticas conseguem entregar os 3 pontos ao mesmo tempo.
2. ENERGIA PRIMÁRIA E SECUNDÁRIA
É recomendável que saibamos distinguir entre energia primária e secundária.
A energia primária é a energia que não passou por nenhuma transformação. Por exemplo, o petróleo bruto.
Por outro lado, se a energia passou por alguma transformação, ela é chamada de energia secundária. Exemplos são os derivados do petróleo, como a gasolina, o diesel e o querosene.
3. JUROS É IMPORTANTE AQUI TAMBÉM
Muitas das decisões energéticas envolvem o longo prazo.
Pense na construção de uma usina nuclear.
O investimento necessário é grande e provavelmente envolverá anos e anos de planejamento.
Em outras palavras, a expansão da capacidade de produzir energia é uma decisão de longo prazo.
E como toda decisão de longo prazo, ela está recheada de incertezas.
A taxa de juros de retorno real (é a taxa de juros de retorno nominal descontada da inflação; é o quanto o investimento ao longo do tempo irá retornar como lucro) é uma das principais variáveis, pois irá auxiliar a mensurar a rentabilidade do projeto.
Assim como ocorre no nosso dia a dia, empresários e investidores querem lucrar com investimentos energéticos.
Uma alta taxa de juros de retorno em investimentos energéticos facilita a expansão da capacidade energética do país.
(como regra: o potencial de lucro tende a atrair investidores - nada diferente do que observamos na economia).
4. A LENTIDÃO É A REGRA
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), um cartel que reúne os países com as maiores reservas de petróleo, aprendeu, na década de 1970, que as pessoas demoram para mudar hábitos a despeito de preços elevados de petróleo.
Breve historinha: em 1973, a OPEP quadruplicou os preços do petróleo. Em 1979, para desespero dos consumidores, ela duplicou os preços.
As pessoas, claro, reclamaram, mas continuaram a usar petróleo.
É difícil abandonar hábitos. Quem possui um carro não irá parar de usá-lo rapidamente - toma-se tempo.
Assim, o ajuste de capital e de hábitos de consumo, quando choques nos preços de energia ocorrem, são lentos.
Usando o economês: a demanda demora a mudar.
Todavia, no longo prazo, a demanda se altera: nós podemos abandonar o carro e utilizar ônibus ou bicicletas. Ou mesmo mudar de casa para um local mais próximo do trabalho e caminhar.
5. OPEP GANHA NO CURTO PRAZO
Portanto, no curto prazo, como não mudamos nossos hábitos rapidamente, preços elevados de petróleo (e de energia em geral) nos penalizam.
Então a receita da OPEP sobe exponencialmente.
Mas no longo prazo, como mudamos nossos hábitos, a receita da OPEP cai.
Essa foi a lição que a OPEP teve com os choques de petróleo da década de 1970.
Subidas nos preços geram lucros vultosos, mas eles tendem a cair com o tempo.
6. O PETRÓLEO NÃO IRIA ACABAR?
No século anterior, ocorreu uma grande discussão (e muita gritaria!) com o possível esgotamento das reservas de petróleo.
Como iríamos viver em um mundo sem petróleo?
Nós o usamos para tudo!
E veja que nos dias atuais essa questão não existe mais!
O fato é que conforme um recurso não renovável tende a se esgotar, o seu preço atual e o seu preço futuro (em contratos futuros) aumentam.
Então passa a ser lucrativo explorar e descobrir novas reservas desse recurso. Pois se antes não era lucrativo gastar bilhões para descobrir novas reservas, com os preços mais altos isso se altera.
E assim empresas descobriram novas reservas de petróleo, incluindo o Brasil, com o Pré-sal em 2006.
A lição é: quando um recurso se torna mais escasso, o seu preço sobe.
O aumento do preço eleva a sua lucratividade, atraindo novos investimentos e empresas.
Logo, mais petróleo foi descoberto.
(ambientalistas radicais ignoram esse princípio econômico da escassez).
7. VAMOS TRIBUTAR OS POLUIDORES
Um dos problemas da Economia Energética é lidar com empresas que poluem.
Veja o problema: a empresa produz e vende o seu produto. Mas durante a sua operação, ela pode jogar rejeitos em rios e poluir o ar com emissões de gás carbônico.
Se o governo não impuser um imposto ou penalidade nessa empresa, ela continuará a poluir o meio ambiente.
Jogando o custo de sua produção sobre nós.
Portanto, o governo deveria intervir nessas situações (os libertários têm dificuldades em aceitar esse princípio econômico: o mercado privado não entrega todas as soluções).
A principal política é o imposto global sobre emissões de gás carbônico. Global porque todos os países deveriam aplicá-lo ao mesmo tempo.
Teoricamente é fácil imaginar esse imposto, mas na prática... Como coordenar um imposto em 200 países?
8. QUEM PRODUZ O PETRÓLEO?
No mercado de petróleo, a maior parte das empresas é estatal.
A justificativa é que há o problema de "vigiar" o que uma empresa privada faria com os recursos do país.
Essa empresa teria o incentivo de adotar as tecnologias que barateiam o custo da extração e o refinamento do petróleo?
E a questão da segurança nacional?
Esse ponto é controverso.
O que sabemos é que países preferem empregar estatais para extrair petróleo.
9. O GÁS NATURAL
O gás natural é uma opção aos combustíveis fósseis tradicionais: petróleo e carvão.
O gás natural emite menor quantidade de gás carbônico, o principal gás responsável pelo aquecimento global.
Todavia, como tudo tem um porém nessa vida, o gás natural exige grande quantidade de capital investido e a sua distribuição é dependente da geografia por meio dos gasodutos.
10. O CARVÃO
O carvão é usado para a geração de eletricidade.
O problema (outro problema! A Economia Energética é cheia de problemas) é que ele emite altas quantidades de gás carbônico.
Por exemplo, 43% do gás carbônico derivado da energia advém do carvão.
11. ENERGIA NUCLEAR
A energia nuclear tem uma grande vantagem em relação às energias renováveis: ela não depende do clima.
Energias renováveis como a solar, a eólica e a hidráulica dependem, respectivamente, da luz do sol, dos ventos e das chuvas.
E se o tempo for desfavorável?
Eis uma pergunta que os defensores da transição energética têm dificuldade em responder.
Uma alternativa é a energia nuclear, que não é renovável, mas que emite baixas quantias de gás carbônico.
Mas há pontos importantes para considerar:
i) o principal minério para a energia nuclear é o urânio (que é um mineral crítico), que é concentrado em 5 países: Canadá, Australia, Cazaquistão, Nigéria e Rússia.
ii) há riscos de desastres ambientais (lembremos de Chernobyl!), riscos de assegurar que rejeitos na produção não poluam o meio ambiente (são altamente radioativos) e riscos militares (o país pode se empolgar com a energia nuclear e tentar dar um passo adicional, criando bombas atômicas).
A Economia Energética tem muitos "poréns" em meio às suas soluções.
12. ELETRICIDADE
A eletricidade envolve as etapas de geração, comércio no atacado, transmissão e distribuição.
Um ponto que aprendi com o livro é que não é possível armazenar eletricidade em uma escala nacional, pois o custo de fazê-lo é altíssimo.
Então as empresas geradoras produzem eletricidade de acordo com a demanda, o que abre espaço para desequilíbrios entre oferta e demanda.
Diferentes preços pela tarifa de eletricidade oferecem uma solução, mas não é perfeita.
13. MONOPOLISTAS
Ainda sobre a eletricidade, observe que a infraestrutura que permeia a sua geração e distribuição (rede elétrica) é vasta, envolvendo elevado gasto em capital.
Logo, a empresa que construiu os fios, os postes, os reatores, os isoladores e os transformadores é uma monopolista.
Pense comigo: como pode ocorrer competição no mercado da rede elétrica?
Uma empresa iria construir postes do lado dos postes existentes?
Dada essa dificuldade, temos o chamado monopólio natural (uma única empresa oferta eletricidade, com o custo médio acima do custo marginal - econômes novamente).
O importante a notar é que o "natural" neste tipo de cenário é a existência de monopolistas.
Resta ao governo fazer bons contratos e oferecer incentivos adequados para que a empresa preste um bom serviço.
Nem sempre é o caso.
14. FIM
Curiosamente, o livro deixou uma das principais lições no epílogo.
Aqui está ela: "Nunca se deve esquecer a mensagem mais importante da economia da energia: a de que consumidores e produtores continuarão a buscar seus próprios objetivos!"
Concordo totalmente com ela.
Não é uma mensagem original, pois nós a utilizamos o tempo inteiro na economia.
Mas é sempre bom realçar, ainda mais na Economia Energética, quando argumentos exigindo o altruísmo de terceiros são comuns.
Comuns, mas incorretos!
Pessoas e empresas buscam os seus interesses: indivíduos querem salários maiores e empresas desejam maiores lucros.
E há nada de errado com isso!
Não tente moralizar!
O que a Economia Energética nos ensina é que devemos conciliar interesses pessoais e privados com metas energéticas, econômicas e ambientais.
VALE A LEITURA?
O livro não é grande, tem cerca de 350 páginas.
A leitura flui e os autores não abusam de termos técnicos.
O que pode incomodar alguns é que o livro é em inglês. Ainda não há uma tradução para o português. Todavia, acredito que isso mudará, dada a crescente demanda por esse tipo de material.
Em resumo, o livro é didático, informativo e irá agregar conhecimento para o leitor.

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