terça-feira, 22 de março de 2022

Com a subida da Selic, como fica o crescimento do PIB?

Brasil continua preso na armadilha do baixo crescimento

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O assunto da última semana foi a subida da taxa de juros de curto prazo (Selic) de 10,75% ao ano para 11,75% pelo banco central. A tendência é que ela continue a se elevar nos próximos meses. O principal fator que puxou essa alta foi a inflação, a qual gira por volta de 10%. Desdobramentos externos podem exacerbar o aumento necessário da Selic, como por exemplo novas quebras nas cadeias globais e/ou redução da produção de petróleo. 

Outros bancos centrais estão seguindo caminho parecido, entre eles o do Estados Unidos, o Fed. Este elevou sua taxa de juros e anunciou que irá subi-la no decorrer dos meses. Até mesmo economistas geralmente críticos a esse movimento o elogiaram, como foi o caso de Paul Krugman. Krugman disse que há enorme incômodo por parte dos americanos por conta dos preços crescentes - o mesmo aqui no Brasil. E esta é uma das piores facetas de inflação ascendente: retira poder de compra da população, especialmente das camadas mais pobres. 

Quando fui fazer as compras da casa no último domingo, o pó de café (Três Corações, 500 gramas) estava custando 15 reais, com uma plaqueta destacando que era um preço promocional. Lembro quando pagava 8 reais para tê-lo, um pouco antes da eclosão da pandemia. No meu caso, usando a linguagem técnica da Economia, meu consumo de café é totalmente inelástico em relação ao preço: tenho de comprar, pois é insumo fundamental na minha produção acadêmica diária. Portanto, paguei os 15 reais - obviamente não muito feliz. 

Krugman acredita que a inflação nos EUA e na Europa começará a ceder quando as cadeias globais de valor e a guerra entre Rússia e Ucrânia derem um alívio. Concordo com esse prognóstico, embora seja difícil assinalar quando essa inflexão irá ocorrer. E essa inversão também ajudaria o Brasil, dado que grande parte de nossa inflação também vem de fontes externas.

Ainda sobre o texto de Krugman, ele considera equivocadas as críticas ao governo Biden por conta da acusação de que a inflação dos EUA disparou em decorrência dos pacotes de gastos implementados. Como esforço para amenizar o baque da Covid-19 sobre a população, recuperar o vigor da economia, e revitalizar parte de sua infraestrutura, Biden conseguiu aprovar pacotes de gastos públicos. Para Krugman, esse fator da demanda tem pouca relevância para explicar a inflação atual.

Aqui no Brasil, o banco central está praticamente sozinho na luta para estabilizar os preços. O governo federal tem como meta expandir o gasto primário - prática normal em anos eleitorais. Pela teoria econômica, o aumento do gasto público pressiona os preços. Como o gasto público representa por volta de 20% do PIB do país, é como se um quinto da população começasse a gastar mais. Portanto, é mais lenha em um processo de preços crescentes. O banco central se vê forçado a aumentar ainda mais a Selic para contrabalancear gastos crescentes. 

Entretanto, nessa semana, precisamente no momento em que escrevo, a taxa de câmbio atingiu o valor de 4,90 R$/US$. Essa queda causa surpresa por conta do cenário externo e interno. Por outro lado, como os preços de commodities estão elevados, é normal que países exportadores se beneficiem com essa alta, refletindo na queda do câmbio, uma vez que recebem mais dólares por suas exportações. A queda do câmbio barateia bens e serviços importados. É um fator que auxilia o banco central em sua tarefa de combater a inflação. 

Na verdade, elevações da taxa de juros Selic tornam títulos públicos mais atrativos para investidores estrangeiros. Estes podem trocar os seus dólares por reais para investir nesses ativos. Essa entrega de dólares é novo reforço para baixar a taxa de câmbio. Claro que há a contrapartida de que no prazo combinado o governo deverá devolver o dinheiro emprestado acrescido de juros - para desespero dos seguidores da Auditoria Cidadã da Dívida. 

Todo esse cenário de incertezas externa e doméstica se reflete em projeções para baixo a respeito do crescimento do PIB. Tudo indica que teremos mais um ano de crescimento medíocre da renda. Novamente sem grandes surpresas, dado que as reformas política e econômica necessárias foram postergadas para o próximo presidente. Nosso país precisa urgentemente de um presidente com visão de longo prazo e espírito estadista - aquele que se incumbe de fazer a nação progredir, relegando ganhos privados em segundo plano. Nem Lula e tampouco Bolsonaro apresentam essas qualidades. E infelizmente os dois lideram as pesquisas de intenções de votos. 

Leio e escuto reiteradas vezes de que essa elevação da Selic irá comprometer o crescimento do país. O crescimento econômico brasileiro já está comprometido, com baixa ou alta Selic. A Selic é somente mais um dos importantes preços que consubstanciam no ambiente macroeconômico de um país. Ela é o resultado de duas forças: a oferta de fundos disponíveis e a demanda para convertê-los em investimento. Caso não tivéssemos um banco central que controlasse essa variável, ela teria subido, como tem sido o caso das taxas de juros de longo prazo, as quais não dependem do banco central.

Nosso crescimento está comprometido porque ainda não ajustamos o país para se tornar um participante ativo da globalização financeira e comercial, porque não fizemos as reformas macro e microeconômicas que poderiam melhorar o funcionamento da economia. Nossas instituições tanto econômicas quanto políticas, no sentido dado por Acemoglu e Robinson no livro Porque as Nações Fracassam, estão caducas. Sem a melhora destas, continuaremos travados. E uma elevação da Selic em 1% tem pouco ou nada a dizer sobre isso.













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