terça-feira, 29 de setembro de 2026

Florestas Têm Preços?

Criei um indicador para precificar nossas florestas 

velha economia


Eu construí um indicador para precificar as florestas brasileiras.

Primeiro ponto: note que florestas, ao contrário de mercadorias, não têm um preço gerado pelo mercado.

Segundo ponto: como fazer isso?

Minha estratégia consistiu em criar um índice com o preço da madeira vendida e com o custo de emitir gás carbônico na Europa.

Veja o indicador abaixo. Como eu o criei, eu também o nomeei de Índice de precificação de ativos florestais (IPAF).

Desta forma, se os preços da madeira e/ou preços das emissões de gás carbônico subirem, o IPAF também subirá. Em outras palavras, as florestas nacionais teriam um valor mais alto.

Dirá o ambientalista apaixonado: a natureza não tem preço!

Ok, não discordo totalmente da afirmação, mas precisamos colocar um preço nas florestas para criar políticas públicas para preservá-las.

O preço ajuda a alocar recursos e a mapear os resultados dessas políticas.

Direi ao ambientalista apaixonado: menos emoção e mais razão! Com razão podemos lutar contra o desmatamento, contra o aquecimento global e promover a sustentabilidade ambiental de nossas florestas.

Tenho certeza que o ambientalista apaixonado concordaria com todos esses objetivos.

Discordamos apenas no método.

 

O IPAF PARECE SER UM BOM INDICADOR

Uma vez criado o IPAF, eu resolvi testá-lo. Eu fiz 6 testes.

A figura abaixo mostra o resumo desses testes (caro leitor, se o senhor não é familiarizado com econometria, não se preocupe, eu escrevi o resumo de tudo – que é o mais importante).

1) Se o planeta ficar 1ºC mais quente, cenário muito provável para os próximos anos, o IPAF cairia em 5% (nossas florestas passariam a valer menos, possivelmente por conta da perda da área verde em decorrência de um planeta mais quente);

2) Se o banco central brasileiro elevar a taxa de juros Selic em 1 ponto percentual, o IPAF cairia em 30%: lembre-se que o encarecimento do crédito enfraquece a atividade econômica, possivelmente reduzindo também a demanda pelos produtos gerados pela floresta brasileira);

3) Se a taxa de câmbio subir em 1%, isto é, se o real se depreciar, o IPAF aumenta em 0.8%: um câmbio depreciado facilita as vendas para o exterior; como nós exportamos muitos produtos derivados das florestas, esse pode ser o canal explicando o aumento do valor das florestas;

4) Se o desmatamento aumentar em 1%, o IPAF cairia em 0.01%. Cairia pouco, é verdade, mas cairia. Talvez porque o desmatamento empobreça a área verde; por outro lado, o desmatamento poderia elevar o IPAF pela escassez de florestas.

 

A figura acima mostra parte do trabalho de nós economistas: nós construímos cenários futuros com simulações.

Nem sempre acertamos, mas é a ferramenta que temos para construir políticas para melhorar o bem estar da sociedade.

 

FALE MAIS DO IPAF

Lembre-se que eu usei o preço da madeira e o preço das emissões de gás carbônico da Europa para construir o IPAF e mensurar as florestas nacionais.

O leitor atento poderia questionar: “ora, mas as florestas brasileiras estão, obviamente, no Brasil, por que então usar emissões de gás carbônico da Europa”?

É porque nós ainda não temos um mercado de gás carbônico com dados que possam ser usados em estudos de construção de cenários. Se tivéssemos, existiria um preço para emiti-lo. Na sua ausência, tive de utilizar o preço europeu.

Há vantagens e desvantagens, como quase tudo na vida! 

A vantagem é que eu incluo, indiretamente, o estado do planeta nos preços das florestas. Se o planeta começa a queimar e perder área verde, poderíamos pensar que esse efeito chegaria no Brasil. Com a inclusão do preço europeu, eu consigo capturar isso.

Por outro lado, o preço do gás carbônico brasileiro nos daria uma medida mais apurada dos preços das florestas.

Eu acredito que nos próximos anos nós teremos um mercado de emissões de gás carbônico mais completo: empresas terão de pagar para poder emitir toneladas de gás carbônico. Cenas para os próximos anos.

 

POR QUE TODO ESSE TRABALHO COM O IPAF?

Eu fiz um artigo para o X Prêmio Serviço Florestal Brasileiro de 2026. A temática era a precificação de ativos florestais. Então criei o IPAF para precificar as florestas nacionais. Dei um passo adiante e mostrei que o IPAF reage a eventos climáticos e macroeconômicos.

E funcionou: fiquei em terceiro lugar.

A página anunciando os vencedores está aqui.

O meu trabalho, escrito em português, está aqui.

A cerimônia de entrega do prêmio ocorrerá em Brasília, em novembro, no final do mês.





 

 

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