Criei um indicador para precificar nossas florestas
Eu construí um indicador para precificar as
florestas brasileiras.
Primeiro ponto: note que florestas, ao
contrário de mercadorias, não têm um preço gerado pelo mercado.
Segundo ponto: como fazer isso?
Minha estratégia consistiu em criar um
índice com o preço da madeira vendida e com o custo de emitir gás carbônico na
Europa.
Veja o indicador abaixo. Como eu o criei,
eu também o nomeei de Índice de precificação de ativos florestais (IPAF).
Desta forma, se os preços da madeira e/ou
preços das emissões de gás carbônico subirem, o IPAF também subirá. Em outras
palavras, as florestas nacionais teriam um valor mais alto.
Dirá o ambientalista apaixonado: a natureza
não tem preço!
Ok, não discordo totalmente da afirmação,
mas precisamos colocar um preço nas florestas para criar políticas públicas
para preservá-las.
O preço ajuda a alocar recursos e a mapear
os resultados dessas políticas.
Direi ao ambientalista apaixonado: menos
emoção e mais razão! Com razão podemos lutar contra o desmatamento, contra o
aquecimento global e promover a sustentabilidade ambiental de nossas florestas.
Tenho certeza que o ambientalista
apaixonado concordaria com todos esses objetivos.
Discordamos apenas no método.
O IPAF PARECE SER UM BOM INDICADOR
Uma vez criado o IPAF, eu resolvi testá-lo.
Eu fiz 6 testes.
A figura abaixo mostra o resumo desses
testes (caro leitor, se o senhor não é familiarizado com econometria, não se
preocupe, eu escrevi o resumo de tudo – que é o mais importante).
1) Se o planeta ficar 1ºC mais quente,
cenário muito provável para os próximos anos, o IPAF cairia em 5% (nossas
florestas passariam a valer menos, possivelmente por conta da perda da área
verde em decorrência de um planeta mais quente);
2) Se o banco central brasileiro elevar a
taxa de juros Selic em 1 ponto percentual, o IPAF cairia em 30%: lembre-se que
o encarecimento do crédito enfraquece a atividade econômica, possivelmente
reduzindo também a demanda pelos produtos gerados pela floresta brasileira);
3) Se a taxa de câmbio subir em 1%, isto é,
se o real se depreciar, o IPAF aumenta em 0.8%: um câmbio depreciado facilita
as vendas para o exterior; como nós exportamos muitos produtos derivados das
florestas, esse pode ser o canal explicando o aumento do valor das florestas;
4) Se o desmatamento aumentar em 1%, o IPAF
cairia em 0.01%. Cairia pouco, é verdade, mas cairia. Talvez porque o desmatamento
empobreça a área verde; por outro lado, o desmatamento poderia elevar o IPAF
pela escassez de florestas.
A figura acima mostra parte do trabalho de nós economistas: nós construímos cenários futuros com simulações.
Nem sempre acertamos, mas é a ferramenta
que temos para construir políticas para melhorar o bem estar da sociedade.
FALE MAIS DO IPAF
Lembre-se que eu usei o preço da madeira e
o preço das emissões de gás carbônico da Europa para construir o IPAF e
mensurar as florestas nacionais.
O leitor atento poderia questionar: “ora,
mas as florestas brasileiras estão, obviamente, no Brasil, por que então usar
emissões de gás carbônico da Europa”?
É porque nós ainda não temos um mercado de
gás carbônico com dados que possam ser usados em estudos de construção de cenários. Se tivéssemos, existiria um preço para emiti-lo. Na
sua ausência, tive de utilizar o preço europeu.
Há vantagens e desvantagens, como quase tudo na vida!
A vantagem é que eu incluo, indiretamente, o estado do planeta
nos preços das florestas. Se o planeta começa a queimar e perder área verde,
poderíamos pensar que esse efeito chegaria no Brasil. Com a inclusão do preço
europeu, eu consigo capturar isso.
Por outro lado, o preço do gás carbônico
brasileiro nos daria uma medida mais apurada dos preços das florestas.
Eu acredito que nos próximos anos nós
teremos um mercado de emissões de gás carbônico mais completo: empresas terão de pagar para
poder emitir toneladas de gás carbônico. Cenas para os próximos anos.
POR QUE TODO ESSE TRABALHO COM O IPAF?
Eu fiz um artigo para o X Prêmio Serviço
Florestal Brasileiro de 2026. A temática era a precificação de ativos
florestais. Então criei o IPAF para precificar as florestas nacionais. Dei um
passo adiante e mostrei que o IPAF reage a eventos climáticos e
macroeconômicos.
E funcionou: fiquei em terceiro lugar.
A página anunciando os vencedores está
aqui.
O meu trabalho, escrito em português, está
aqui.
A cerimônia de entrega do prêmio ocorrerá em Brasília, em novembro, no final do mês.

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