O país dos contrastes é também o país dos problemas não resolvidos
Belíndia 2.0: Fábulas e Ensaios sobre o País dos Contrastes reúne textos de Edmar Bacha e convidados sobre os principais problemas econômicos do Brasil no passado e no presente, além de propor soluções para esses desafios.
Edmar Bacha é um economista famoso: fez parte da equipe do Plano Real (1994), foi professor universitário, ocupou importantes posições em órgãos públicos e publicou artigos e livros que fazem parte da formação de alunos em cursos de economia.
O título Belíndia é uma metáfora para a grande desigualdade do Brasil: tem uma parte rica que convive com a parte pobre - podemos visualizar esses contrastes em cidades. A parte rica seria parecida com o nível de riqueza da Bélgica, enquanto a parte pobre teria a Índia como contraparte. Daí o termo Belíndia.
Uma das lições que a obra nos deixa é que deveríamos nos atualizar com novas lições e conhecimentos para aprimorar as propostas para corrigir o país, pois o "aperfeiçoamento das políticas é um processo contínuo".
O livro se divide em 3 eixos.
INFLAÇÃO GALOPANTE
A primeira parte apresenta artigos sobre a hiperinflação que assolou o país nos anos 80 e 90.
Embora não exista uma definição exata de hiperinflação, ela normalmente ocorre quando a inflação mensal ultrapassa a casa dos 50% por diversos meses.
Sim, a moeda do país passa a valer quase nada.
Os preços sobem constantemente.
A melhor estratégia é, tão logo o salário caia na conta, correr aos mercados e fazer compras.
Pois minutos de demora representam compras mais onerosas.
(Se na sua cidade a população vai ao mercado todo início do mês e faz a famosa "compra do mês", é resquício dos tempos de hiperinflação).
(Possivelmente serão indivíduos com mais idade, que penaram com os anos de 1980 e 1990).
Talvez o melhor (e mais famoso) retrato da hiperinflação é a figura da torcida levantada nas gerais dos estádios: se todos se sentassem ao mesmo tempo, todos poderiam assistir aos jogos sentados, com mais conforto.
Mas como a primeira fileira se levanta para assistir ao jogo, a segunda fileira também se levanta, e assim por diante. No final, estão todos levantados e desconfortáveis.
Como implementar uma coordenação na qual todos se sentem ao mesmo tempo?
Eis a essência da inflação inercial, aquela que continua aumentando porque os preços no passado eram altos, então os preços de hoje também serão altos, e os preços futuros também - tudo por inércia.
O livro apresenta os conceitos de inflação por conflito, a visão distributiva (todos tentam aumentar suas respectivas fatias da renda ao mesmo tempo) e a visão monetarista, a inflação como consequência do déficit público.
Embora em menor grau, todos esses componentes estão presentes na inflação brasileira atual.
Essa parte termina com o Plano Real, dando os seus bastidores e detalhes.
DESAFIOS ATUAIS
A segunda parte apresenta uma hipótese interessante para a queda do crescimento econômico brasileiro: alto preço do investimento.
Devido aos impostos, burocracia, regulações e baixo grau de abertura comercial, o preço que as empresas pagam para realizarem investimentos é mais alto do que o observado internacionalmente.
Neste sentido, torna-se mais difícil expandir a produção, o emprego e o investimento.
Outro texto que merece a leitura é o que discute o porquê de termos uma taxa de juros tão elevada. A justificativa é que temos uma incerteza jurisdicional.
Essa incerteza se caracteriza pelo viés da lei do país em proteger mais o devedor do que o credor. Esse risco é embutido sobre a taxa de juros: o credor aceita emprestar o seu capital desde que o retorno compense o maior risco.
O último ensaio discute políticas sociais que precisam ser aprimoradas. Elas são:
1) Saúde
2) Previdência
3) Transferência de renda
4) Educação
5) Segurança pública
No tocante à saúde, o sistema SUS ajuda a proteger a população mais vulnerável, mas há o desafio de reduzir o tempo de espera nas filas, torná-lo financeiramente sustentável e impor custos sobre a população mais rica.
Como o Brasil está se tornando um país com mais idosos do que jovens, o déficit da previdência tenderá a aumentar. Reformas deverão ser feitas - ainda que sejam nada populares.
Também temos de aprimorar os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família (que virou política eleitoral), a educação (resultado do PISA evidencia esse ponto) e a segurança pública tem que resolver a infiltração crescente de grupos como o PCC e o CV. Embora escrito em 2012, Belíndia 2.0 continua atual na agenda social.
FARTURA EM COMMODITIES É UMA BÊNÇÃO?
A última parte resgata o ciclo do café desde meados de 1890 até os dias atuais, mostrando o auge e declínio do café.
O Brasil chegou a dominar praticamente todo o mercado cafeeiro, sendo um monopolista do produto.
Apesar da posição, não teve vida fácil: vários acordos de retenção de estoques e financiamento eram praticados para viabilizar as operações.
No final a dúvida: valeu a pena? O país ficou mais rico?
A obra abre o questionamento mas o deixa em aberto.
(Eu tenho inclinação para não concordar com intervenções nos preços dos mercados, como o país fazia - me parece um desperdício de tempo e de recursos. Além disso, é difícil superar as forças da oferta e da demanda, como o ciclo do café nos ensinou).
(Intervenções costumam gerar situações absurdas, como a queima de 78 milhões de sacas pelo Brasil entre 1931 e 1944).
(Intervenções retardam o ajuste: provavelmente teríamos menos produtores de café caso o Brasil permitisse que os preços caíssem; essas pessoas buscariam ocupações mais vantajosas, em um sentido produtivo e econômico, para o país)
Finalmente, no final há uma comparação da Argentina, da Venezuela, do Chile e do Brasil em relação ao tratamento das commodities que possuem. A julgar pelos fatos, parece que somente o Chile conseguiu converter a fartura de commodities, especialmente o cobre, em aumento do padrão de vida e melhora da economia.
O Brasil ensaiou um "decolar" em 2009, mas sofreu com uma frustração.
E hoje, enquanto escrevo, estamos ainda estagnados.
A lição então é: não é a commodity, por si, que determina o futuro do país, mas a política que gerencia o uso dessa commodity.
FECHAMENTO
O livro fornece boas discussões sobre inflação, crescimento econômico, políticas sociais e gerenciamento de commodities. Ele continua atual em alguns pontos, como na necessidade de aprendermos a aproveitar os recursos que possuímos.
Hoje o Brasil terá mais uma chance, desta vez com os minerais críticos.
Todavia, a obra me pareceu um retalho com um desenvolvimento que poderia ter sido melhor trabalhado. Os textos de Edmar Bacha são antigos, previamente publicados - ele apenas atualiza alguns pontos.
Por exemplo, o capítulo sobre o café, que ocupa mais ou menos 100 páginas (um exagero de páginas para um livro de 450 páginas), não faz sentido com o objetivo da obra. Não agrega na discussão de Belíndia e não ajuda no seu desenvolvimento.
Me pareceu que foi colocado para preencher espaço e dar corpo no livro.
A discussão da hiperinflação não é atual; foi um problema superado.
Por essas e outras, o livro peca no desenvolvimento e coesão.
Por outro lado, a maioria dos textos são agradáveis de serem lidos e informativos.
Não é um livro que eu começaria para entender os problemas econômicos do Brasil. Belíndia 2.0 funcionaria melhor como complemento, não como principal material para mergulhar na economia brasileira.
Por fim, apesar do título nos remeter à desigualdade de renda, não há nenhum texto sobre desigualdade de renda...
Propaganda minha: o ebook que escrevi discute alguns desses pontos omissos, acrescentando outros como o nosso baixo poder de compra e baixos salários. Veja aqui.

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