quarta-feira, 24 de maio de 2023

Falta de Planejamento

Brasil realmente precisa de mais automóveis nas ruas?

lula brasil economia


Uma das críticas mais pertinentes à administração do atual governo é a ausência de um planejamento para atingir determinado objetivo. Eu sempre discuto a falta de coerência no âmbito econômico. Por exemplo, enquanto o ministério da Fazenda almeja criar uma regra fiscal (arcabouço fiscal) para equilibrar as contas públicas, o presidente Lula e cia têm argumentado em favor de reduções de impostos e ampliação do gasto público. Portanto, direções opostas para o objetivo de arrumar as contas públicas.

Recentemente, o governo avançou a ideia de baratear carros populares. De fato, carros no Brasil se tornaram ainda mais caros após o fim da pandemia. Carros "populares" novos estão por volta de 100 mil reais. Em um país no qual o salário mínimo é de 1320 reais, seriam necessários 75 meses para adquirir um automóvel novo. Se adicionarmos despesas como o IPVA (no valor de 4% do carro, portanto, 4 mil reais), seguro (mais ou menos 3 mil reais), manutenção anual (1,5 reais), e abastecimento de combustível (vamos supor custo anual de 1 a 2 mil reais, subestimando em muito o gasto neste quesito) o custo anual, além do carro, seria de por volta de 10 mil reais. Em outras palavras, o brasileiro comum, aquele que se situa na média da população, teria enormes dificuldades em arcar com a compra de carros populares e suas despesas subsequentes. 

Os problemas do governo desejar baratear carros populares para cifras de 50 a 60 mil reais são variados. Primeiro: é incoerente para um governo que se autoproclama atento ao aquecimento global incentivar a compra de automóveis que emitem gás carbônico (CO2) e utilizam combustíveis fósseis. Segundo: a maior parte das cidades brasileiras sofre com problemas de excesso de automóveis, com trânsito caótico. Mais carros tenderá a piorar ainda mais as consequências da falta de planejamento e infraestrutura urbana. Terceiro: um dos principais flagelos para a população vulnerável não é a falta de carro próprio, mas a fome. Por que destinar recursos públicos para facilitar a compra de bens de luxo (carros populares são bens de luxo no Brasil, considerando o poder aquisitivo da população e o valor destes automóveis) para alguns brasileiros, quando outros milhões ainda carecem de infraestrutura urbana (esgotos abertos), alimentos básicos e educação? Portanto, falta de planejamento em um nível central. Cada vez mais tenho a impressão de que o governo Lula é composto por várias ações isoladas, todas muito bem justificadas para "ajudar o povo brasileiro", mas que no final colidem entre si - termo formal é ações voluntaristas, quando carecem de planejamento e argumentos técnicos, se baseando apenas na vontade de fazer algo.

Carros tiveram os preços elevados desde a Covid-19 não somente no Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, parte da inflação decorre de carros ainda mais caros. A estabilização (portanto, queda do valor de automóveis) dos preços de automóveis ainda não ocorreu. 

Para finalizar, muito provavelmente a factibilidade do plano de baratear carros populares dependerá de subsídios e incentivos tributários para montadoras. Mais alterações e intervenções em um sistema tributário disfuncional - para no final contribuir com mais emissões de CO2 no planeta, inchar ainda mais o tráfego em cidades e não permitir a estabilização dos preços de automóveis pelas forças do próprio mercado.








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