domingo, 3 de dezembro de 2023

Brasileiros Seguem com Problemas Financeiros

Quem são os vilões?

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O jornal Valor soltou reportagem que nos ajuda a ter um retrato da vida financeira dos brasileiros. O principal dado é que 63% dos brasileiros com carteira assinada não conseguem pagar despesas básicas ao final do mês. Despesas básicas são o gasto com aluguel, alimentação, higiene, energia elétrica, gás e transporte. Problemas financeiros também atingem a parcela mais rica da população, com rendimentos superiores a 26 mil reais mensais. Destes, 55% afirmaram enfrentar problemas financeiros. 

Como o país tem 44 milhões de brasileiros com carteira assinada, 28 milhões (valor absoluto do 63% mencionado acima) de brasileiros estão passando por problemas financeiros. A população sem carteira assinada que não fez parte dessa pesquisa é de 13 milhões de reais. Em geral, trabalhadores sem carteira assinada tendem a ter menores rendimentos que os seus pares com carteira assinada. Podemos pensar que aqueles também apresentam problemas financeiros. Grosso modo, de uma país com 214 milhões de indivíduos, algo próximo como um quarto ou um quinto deles estão passando por estresse, ansiedade e irritação por causa da falta de recursos

Tenho para mim que o principal fator explicativo é a pressão para consumirmos cada vez mais nos dias atuais aliada com a ilusão de que esse consumo trará satisfação. No momento da compra, isto é, no curtíssimo prazo, isso é verdade. O consumo gera satisfação, prazer. Mas depois de um tempo essa sensação tende a se dissipar. Penso que também o consumo é fomentado por insegurança pessoal e desejo de se reafirmar na sociedade (aqui entra o consumo como forma de ostentação; o consumo para seguir a "moda" e não ficar para trás). Finalmente, o consumo pode ser usado como um tipo de droga: compensar sensações desagradáveis. 

Uma ressalva a todos esses fatores vai para os brasileiros que não apresentam esse desejo crescente por consumo, mas que ainda assim sempre chegam no final do mês com problemas financeiros. Dado que somos um país de renda média, estagnado, com elevada desigualdade de renda, há estratos da população com salário muito baixo, insuficiente para suprir necessidades básicas. Não estou me referindo a essa parcela dos brasileiros. 

Em conversas informais com amigos, conhecidos e colegas de estudo e trabalho, noto que todos expandem o consumo tão logo suas rendas aumentam. Quem eleva a poupança e investe é uma minoria, mesmo entre pessoas esclarecidas e com alto nível de educação formal. É comum eu receber comentários do tipo: "você tem que viver, você vai morrer e o seu dinheiro ficará para outro" (nota: eu sou um poupador e investidor, com investimentos mirando o longo prazo). Há vários problemas com esse tipo de frase. Um é que ele associa uma vida satisfatória com o aumento do consumo.  E na corrida dos nossos desejos, do consumo e da renda, sempre perderemos. Tão logo alcancemos o bem desejado, outro irá aparecer. É uma corrida na qual a linha de chegada sempre se afasta de nós. 

Quando me pedem recomendação em relação a finanças, sempre argumento em favor de montar uma poupança, com aportes mensais e seguidos. Se o interlocutor me concede liberdade, eu critico a compra de carros ou outros bens muito caros como prioridade na vida. Desqualifico o consumo como ato necessário para se ter uma vida satisfatória. E digo que há como encontrar um equilíbrio com consumo, poupança e investimento, contas em dia, e a desejada e famigerada "felicidade". Se tal "felicidade" depender do consumo, ela não virá, e se vier, será temporária.   

Outra observação de minhas conversas - uma notável mudança no meu comportamento, pois sempre fui mais fechado; em parte porque gosto de ficar sozinho (fui influenciado por Jordan Peterson e por acontecimentos nos últimos anos) - é que praticamente todos reclamam da renda que recebem. E também é quase unânime que quase todos não estão satisfeitos com os atuais níveis de consumo. Há um elemento estranho em tudo isso. 

Uma boa reflexão é avaliarmos nossas vidas, e contrastar essa avaliação com nosso consumo e renda. É algo muito subjetivo e pessoal - cada um de nós vive em um mundo particular. Talvez esse exercício posso te ajudar a controlar as finanças; talvez não. De toda forma, o autoconhecimento é ferramenta valiosa em nossas vidas. Sócrates se referiu a isso quando recomendou que conhecêssemos a nós mesmos ("conhece-te a ti mesmo").   







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