segunda-feira, 30 de março de 2020

Repressão financeira nos espera após a pandemia?


Custo de rolagem das dívidas nacionais pode ativar alterações na ordem econômica

economia mudará


Grande parte dos países começou a expandir o gasto fiscal para contrabalancear o novo cenário de paralisação econômica promovida pela difusão do coronavírus. No campo monetário, os bancos centrais estão atuando em harmonia, facilitando a tomada de empréstimos e fornecendo ampla liquidez tanto para o setor financeiro quanto para o setor produtivo. É uma novidade no leque de opções do banco central. Da estratégia de emprestador de última instância para instituições financeiras, entre elas especialmente os grandes bancos, englobou-se agora o setor industrial. O banco central se tornou, nessa crise, emprestador de última instância também para o setor não financeiro (teremos talvez um novo documentário sobre o too big to fail, nos moldes de Inside Job, mas agora voltado para empresas industriais monopolistas/oligopolistas? Link do trailer do filme aqui).
Essa é apenas uma das possíveis mudanças de caráter transitório e emergencial que, no entanto, pode permanecer após a crise. Parece mais provável, além dessa e outras alterações no modus operandi das economias de mercado, a cristalização de um cenário com países profundamente endividados. O gráfico retrata a dívida total das economias avançadas em proporção com o PIB. Japão é o único que ultrapassou a marca de 200% de dívida, seguido de perto pela Grécia. Reino Unido, França e Estados Unidos ultrapassaram o patamar de 100%, e essa crise irá alçá-los a níveis ainda maiores.



O leitor pode questionar o porquê de, até o momento, esses países não apresentarem dificuldades de financiamento/rolagem da dívida (com exceção da Grécia). Uma explicação é o fato de serem economias maduras, com inflação controlada, setor público organizado (apesar da crescente dívida), mercado financeiro dinâmico e possuírem produtividade do trabalho superior à média da economia mundial. Outra explanação, seguindo um pouco essa última – ou como uma consequência desta - é a de que os bancos centrais desses países reduziram o fardo do pagamento de juros ao definirem uma taxa de juros muito baixa. Juntando todas essas hipóteses, e adicionando a observação de que os credores têm conhecimento desses dados, eles aceitam financiar essas economias com uma taxa de juros baixa e com prazos mais longos de amortização da dívida – avaliam como pouco arriscado emprestar dinheiro para essas nações. Daí o caráter de facilidade na rolagem da dívida. Cenário diverso é o das economias em desenvolvimento, como o Brasil, as quais são vistas com receio pelos credores e, portanto, são penalizadas com uma taxa de juros maior, como forma de compensar o risco de um possível calote.
Com um pouco de otimismo, talvez em julho/agosto essa crise estará superada. Mas os seus efeitos tenderão a permanecer, entre eles, o aumento do endividamento público. Se a rolagem da dívida continuará sendo realizada da forma como é vista hoje, é outra questão. No caso dos países em desenvolvimento, como o Brasil, o qual, antes mesmo da crise, lutava para obter maior credibilidade internacional, a situação ficará mais difícil.
Aumento da tributação e implementação de reformas para enxugar o setor público são opções para todos esses países – incluindo o Brasil. Mas talvez não seja o suficiente. Se a experiência pós-segunda guerra mundial ensina alguma coisa sobre o manuseio do endividamento público, é o de que a repressão financeira e a inflação são ferramentas úteis para encurtar o fardo fiscal. No caso da primeira, a repressão financeira significa a intervenção do governo sobre o setor financeiro, estabelecendo tetos para o patamar da taxa de juros. A inflação tende a beneficiar os devedores na medida em que reduz o poder de compra da moeda, e no caso de dívidas não indexadas à inflação, estas se tornam mais facilmente resgatáveis. Junte a repressão financeira, segurando o aumento da taxa de juros, e uma maior taxa de inflação, e teremos dívidas sendo reduzidas pelo governo ao custo dos credores. Esse prognóstico não exclui eventuais moratórias/renegociações/reestruturações da dívida – uma forma mais infame de reduzir o fardo fiscal.  
Como denominador dessas medidas tem-se o braço do governo mais arraigado e difundido na economia – foi o que ocorreu após a segunda guerra. Infelizmente, uma consequência desse cenário é uma globalização combalida – está já estava sendo alvo de ataques de nacionalistas mesmo antes do covid. O xenofobismo pode ganhar terreno, com a bandeira contra os chineses, e subsequentemente o movimento migratório tender a se reduzir.
No geral, para resumir, podemos conviver, após o fim da pandemia, com uma economia um pouco menos dinâmica, com um contrato social procurando ampliar o tempo de vida de empresas em dificuldades, uma ordem menos globalizada e mais fechada em suas fronteiras nacionais, e um profundo endividamento público, o qual pode reivindicar maior controle sobre o mercado financeiro (repressão financeira) como forma de administrar a dívida (discuto um pouco desse cenário nesse link).




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