terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Resenha: Anatomia da Produtividade no Brasil (Regis Bonelli, Fernando Veloso e Armando Pinheiro)

Livro explica o baixo crescimento da produtividade brasileira

economia fgv ibre


Esse é o segundo livro do grupo de estudo da FGV/Ibre que tive a oportunidade de ler. O primeiro, A Crise de Crescimento do Brasil, investigou os principais fatores que emperravam a expansão da produção a taxa mais elevada. Dos fatores elencados, destaque foi dado para o baixo crescimento da produtividade. Há consenso na literatura de crescimento econômico de que, no longo prazo, a produtividade é o principal fator a explicá-lo.  

Dada a importância da produtividade, temos esse livro, Anatomia da Produtividade no Brasil, o qual se propõe a destrinchar os motivos que concorrem para que a economia brasileira apresente problemas em elevar a produtividade ao longo do tempo. 

A obra é dividida em 16 capítulos, os quais tocam nos temas abaixo:

i) produtividade setorial

ii) produtividade das firmas

iii) produtividade agrícola

iv) indústria de transformação

v) firmas de inovação

vi) taxa de poupança

vii) infraestrutura deficiente

viii) sistema tributário

ix) mercado de trabalho

x) escolaridade

Chamei a atenção na resenha do livro A Crise de Crescimento do Brasil para a omissão da discussão do nosso setor tributário - disfuncional, regressivo e oneroso - e o seu impacto sobre o crescimento. Essa lacuna foi preenchida no livro sob análise. A conclusão é de que "há fortes indícios de que, em nosso país, o impacto negativo das distorções introduzidas pela tributação é maior que o observado em outros países". Tópico muito bem vindo, especialmente quando consideramos a atual conjuntura de possível reforma tributária no próximo ano. 

Outro ponto ausente no livro anterior foi uma análise do mercado de trabalho. Há críticas de que nossas leis dificultam tanto contratações quanto demissões, tornando esse mercado pouco flexível. Novamente, tal omissão foi superada na atual obra. Temos um capítulo que analisa terceirizações, redução da jornada de trabalho e o custo da legislação complexa sobre a produtividade. Sem grandes surpresas, a rigidez do nosso mercado de trabalho contribui para baixos ganhos de produtividade

Resumindo os demais tópicos. É mostrado que sofremos de baixa produtividade setorial, com destaque negativo para as pequenas firmas (com poucos empregados), as quais tendem a permanecer em operação por longo excessivo, em comparação com outros países. Como estas apresentam baixa produtividade, tendem a jogar a produtividade total para baixo patamar. No tocante à indústria de transformação, é argumentado que ela também sofre de baixa produtividade. Um possível candidato para explicar essa letargia é a inadequada alocação de fatores (políticas de conteúdo nacional, subsídios do BNDES e reservas de mercado tendem a explicar esse desajuste). 

Empresas que inovam no país sofrem de escassez de mão-de-obra qualificada, apesar dos subsídios públicos que recebem, prejudicando dessa forma o avanço tecnológico. Apresentamos baixo nível de investimento, em decorrência de uma também baixa taxa de poupança. Infraestrutura deficiente, com indícios de problemas nas licitações e concessões (não é trivial o processo de transferir para a iniciativa privada projetos de infraestrutura, como é mostrado no livro). É um fator pouco considerado pelos defensores de investimentos públicos, o de que o Brasil não possui estrutura adequada, tampouco pessoal capacitado, para realizar todas as etapas da estruturação, planejamento e custos de projetos. Logo, o resultado tende a ficar aquém do esperado. Por fim, é mostrado que a escolaridade brasileira se expandiu nos últimos anos, mas que não conseguimos revertê-la em maior produtividade. Fiz essa discussão aqui

O público dessa obra é um pouco restrito, pois os seus artigos exigem conhecimento de ferramentas de análise, como econometria. Por outro lado, a ampla utilização de dados e a comparação com outros trabalhos e experiências de outros países enriquecem a investigação. Embora o leitor pouco afeito a esse tipo de análise possa ter alguma dificuldade para entender os procedimentos usados, ele pode, sem prejuízo, pular para as discussões dos resultados e as conclusões. Livro recomendado para aqueles que almejam análise mais detalhista, científica, da economia brasileira, e procuram entender o baixo crescimento que enfrentamos. 







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